O conto “O Hóspede de Drácula” foi publicado em O Hóspede de Drácula e outros contos, no ano de 1914, pela viúva de Bram Stoker, Florence. Em edições anteriores do livro sobre vampiros mais conhecido da literatura mundial, o conto havia sido retirado pelos editores devido a sua extensão.

“O Hóspede de Drácula” é narrado em primeira pessoa e fala sobre a aventura de um jovem em Munique, o qual resolve dar um passeio pelas redondezas da cidade em pleno dia em que se comemora a noite de Walpurgis (30 de abril) na qual, de acordo com os folclores germânico e escandinavo, as bruxas se reúnem para adorar ao diabo. O jovem narrador, um inglês bastante cético quando o assunto trata sobre folclore, ignora os conselhos do cocheiro que o acompanhava no passeio e resolve se aventurar por uma vereda que levava até um vilarejo, considerado pelos moradores locais como um lugar amaldiçoado.

Lá, o intrépido cavaleiro britânico é surpreendido por uma nevasca e obrigado a buscar abrigo junto de um bosque:

“Enquanto observava, o ar esfriou subitamente e a neve começou a cair. Pensei nos quilômetros e quilômetros de campo deserto por onde passara e então me apressei a procurar abrigo no bosque à frente. Cada vez mais escuro ficava o céu e cada vez mais rápida e pesada caía a neve, até que o terreno ao meu redor tornou-se um tapete branco e cintilante, cujas extremidades se perdiam em neblina e incerteza. Nesse ponto a estrada era precária, e, quando plana, os limites não eram  tão definidos quanto nas depressões; aos poucos percebi que tinha me desviado, pois não sentia por baixo dos pés a superfície dura da estrada, e meus pés afundavam no capim e no musgo. Então, o vento se intensificou, soprando cada vez mais forte, e tive o ímpeto de correr a sua frente. O ar enregelou e comecei a sofrer devido ao frio, apesar de me manter em movimento. A neve agora caía tão espessa, circundando-me com velozes redemoinhos, que eu mal conseguia manter os olhos abertos. De vez em quando o céu era rasgado em pedaços por relâmpagos vívidos, e os clarões me faziam ver à frente uma grande quantidade de árvores, principalmente teixos e ciprestes, todos recobertos por densa camada de neve” (STOKER, 2010, p. 86-87).

Neste cenário ameaçador e açoitado por uma tempestade de neve que lhe ameaçava matar devido a hipotermia, o narrador acaba por encontrar um túmulo, um mausoléu gigantesco em cujo portal estavam escritas as seguintes palavras:

“CONDESSA DOLINGEN DE GRAZ

NA ESTÍRIA BUSCOU E ENCONTROU A MORTE 1801″

Na parte de trás da sepultura estava gravada outra frase: “OS MORTOS VIAJAM DEPRESSA”. O local era tão sinistro e sombrio e o jovem estava tão assustado e enregelado que sentiu que ia desmaiar. Foi nesse momento que lembrou de que estava em 30 de abril, ou seja, em plena noite de Walpurgis, na qual segundo a crença popular, o diabo andava a solta para caminhar por entre os túmulos junto com os mortos que se levantavam. Foi em meio a esta situação que o narrador julgou ter adormecido e então:

“Uma imensa quietude me envolveu, como se o mundo todo estivesse adormecido ou extinto, e cessou somente com o arfar de algum animal bem próximo. Percebi algo áspero e quente na minha garganta, e nesse instante conscientizei-me da verdade aterradora, que me esfriou até o coração, fazendo o sangue afluir ao cérebro. Algum animal grande estava deitado sobre mim e lambia a minha garganta. Receava me mover, pois certo instinto de prudência me mantinha deitado e imóvel; mas a fera parecia notar agora alguma alteração em mim, visto que ergueu a cabeça. Através dos cílios vi logo acima os dois grandes olhos flamejantes de um lobo gigantesco. Dentes brancos e afiados brilhavam na boca escancarada e vermelha, e eu sentia seu hálito quente, feroz e acre” (STOKER, 2010, p. 91).

O jovem inglês foi salvo por um grupo de busca, mas não porque qualquer pessoa tenha sido avisada sobre a sua pretensão em visitar o lugarejo maldito durante o Walpurgis. Simplesmente, em seu hotel havia sido entregue um telegrama que continha a seguinte informação:

“Bistritz.

Cuide bem do meu hóspede – sua segurança é valiosa para mim. Se qualquer coisa lhe acontecer, ou se ele desaparecer, não poupe esforços para encontrá-lo e garantir sua segurança. Ele é inglês e, por conseguinte, aventureiro. A neve, a noite e os lobos são perigos constantes. Não perca um instante caso suspeite que algum dano possa lhe ocorrer. Correspondo ao seu zelo com minha fortuna. Drácula” (STOKER, 2010, p. 96).

É possível perceber que este conto é ligeiramente diferente das lógicas vampirescas mais contemporâneas, que seguem a novas representações construídas em torno de personagens  figuradas nas páginas de livros como a saga Crepúsculo. Mas nem por isso são menos interessantes. Pelo contrário.

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