Antes que se fale sobre o primeiro livro de The Walking Dead é importante dizer que apesar da história criada na HQ de Robert Kirkman já ter sido contada em vários meios e de diversas formas — a original em história em quadrinhos, a série de televisão da emissora AMC e em diversos jogos. — talvez a que mais cause impacto sejam os livros. Esqueça os zumbis caindo aos pedaços em maquiagens impecáveis na série, são os livros que trazem zumbis assustadores e marcantes em situações de roer as unhas.

No primeiro livro da série de The Walking Dead, A Ascenção do Governador, acompanhamos a história do já conhecido e reverenciado vilão da série e dos quadrinhos, Brian futuramente reconhecido pela alcunha de Governador. No livro somos apresentados ao vilão, antes da infecção zumbi e a decadência do mundo, quando o personagem ainda era digno de pena e compaixão e ainda nutria tais sentimentos. A transformação do personagem conforme o mundo á seu redor desaba e o obriga a mudar, quase humaniza o personagem que conhecemos como vilão e aprendemos a odiar. Quase.

Os personagens do livro são menos numerosos e isso torna mais fácil preocupar-se com eles durante a narrativa. Conhecemos Brian, este o futuro Governador, Phillip Blake, que é seu irmão e sua sobrinha Penny. Outros personagens povoam a história, mas poucos duram muito e são de fato importantes na trama. No livro, eles desejam encontrar um lugar seguro para viver e cuidar da pequena Penny. Atravessam então cidades desoladas e habitadas por hordas de zumbis, e estão sempre a procura de um refúgio.

No livro temos a impressão de que há muito mais zumbis que em qualquer outra história já contada de The Walking Dead. As hordas são muito mais numerosas e é mais comum dar de cara com dezenas ou centenas de mortos vivos. Na narrativa, a descrição das criaturas apodrecidas merece toda uma atenção especial. Os zumbis são descritos em seus mínimos detalhes. É dito onde estão feridos, quais partes estão faltando, onde estão podres. Toda a minuciosidade das descrições é o que torna os zumbis dos livros tão marcantes e especiais. O leitor consegue imaginar cada zumbi e perceber o quanto um difere de outro.

A aflição dos personagens extrapola pra fora das páginas e consegue com maestria “contaminar” o leitor. O livro é narrado em terceira pessoa por um narrador observador e em algumas situações, o narrador, deixa claro que há zumbis escondidos, caminhando até os personagens que distraídos não fazem ideia disso. O leitor sente-se aflito ao saber disso. Seus personagens estão ali indefesos, prestes a ser atacados e você não faz ideia de como aquela situação irá terminar. Em uma das passagens mais marcantes do livro, os personagens chegam a uma casa e matam todos os zumbis que há nela pra que possam passar um tempo ali. Uma família inteira. O problema é que Brian percebe por meio de uma foto da família que há um membro, um zumbi faltando. Eles não mataram todos os zumbis. Falta um e provavelmente ele ainda está na casa. Os sons ouvidos durante a noite só aumentam as suspeitas de que ainda há um zumbi no lugar, mas ninguém consegue encontrar o zumbi e mesmo assim os barulhos não param.

A narrativa do livro segue um ritmo de altos e baixos. Há momentos de aflição e tensão extremos e um pouco de calmaria conforme os personagens precisam decidir o que fazer ou se envolvem em conflitos pessoais. É nesse ponto que vemos o personagem do Governador ganhando forma. Ele é o oposto do que seu irmão Phillip Blake é. Brian é bondoso, calmo, paciente e cuida da sobrinha o tempo todo. Comete erros e tem medo de tudo. No livro é Phillip que cuida de todos. É um personagem forte, com um passado marcado por tragédias e que está disposto a fazer qualquer coisa para salvar sua filha. Qualquer coisa mesmo. Há acontecimentos no livro que beiram o surreal. É simplesmente inacreditável que os irmãos tomem algumas atitudes. A transformação psicológica dos personagens é explorada como nunca antes visto em The Walking Dead, seja na série, HQ ou jogo. Aos poucos a insanidade transforma os irmãos Blake.

Não é necessário ter estômago forte pra ler os livros de The Walking Dead, mas se você acompanha a série e ela te dá um friozinho na barriga, pode apostar que este sentimento lhe acompanhará durante boa parte da leitura de “A Ascensão do Governador.” A série de livros de The Walking Dead já tem quatro livros lançados e é de se esperar muito mais páginas de zumbis, mortes e aflição.

 

Comentários