Não sou fã de filme de comédias. Comédias americanas então, credo! Na realidade, passo longe de qualquer tipo de produção que tenha a temática humorística estampada em sua classificação. Por quê? Porque em sua maioria as piadas são preconceituosas, machistas, racistas, homofóbicas, desrespeitando credos e raças de uma maneira tão prejudicial que chega a embrulhar o estômago. E se o objetivo é dar risadas, mas para isso é preciso depreciar o outro, então, tô fora!

Tanto que nem dei atenção quando li a chamada da produção espanhola Toc Toc (2017) na Netflix, que de maneira superficial traz: “Na sala de espera do médico atrasado, pacientes com TOC precisam lidar com as manias estranhas de cada um”. Já achei esquisito colocarem um distúrbio psiquiátrico no patamar de “mania estranha”, mas me rendi ao perceber que um dos protagonistas é o ator e diretor de teatro Oscar Martínez (Relatos Selvajes, 2014).

Martínez interpreta Federico, um senhor muito simpático e cordial que sofre da Síndrome de Tourette, um transtorno neuropsiquiátrico incurável, caracterizado por diversos tiques físicos e vocais, que também é associado à vocalização de termos obscenos ou afirmações socialmente impróprias, ou seja, ele fala palavrão pra c@#&%*!!!! Isso se intensifica quando está rodeado de pessoas ou quando Federico vivencia um momento de estresse.

Muitas vezes qualquer interação social já desperta a Tourette, fazendo com que ele passe por situações constrangedoras, como uma simples conversa numa sala de espera. E é no consultório do psiquiatra Dr. Palomero que ele encontra Blanca (Alessandra Gimenes), uma auxiliar de laboratório com misofobia, um pânico patológico por micróbios, que fez com que ela desenvolvesse um transtorno compulsivo por limpeza. Ela ainda é incapaz de tocar as coisas ou as pessoas, tendo sua vida praticamente controlada pelo ato de limpar.

Os dois aguardavam o médico que está atrasado, quando chegam outros quatro pacientes, cada qual com seu próprio transtorno obsessivo compulsivo: Emílio (Paco León) é um taxista acumulador e aritimomaníaco, que precisa a todo momento contar a quantidade de coisas a sua volta; Ana Mária (Rossy de Palma) uma dona de casa com o TOC de verificação, ou seja, a necessidade de “ter certeza” que as coisas estão em ordem e o medo obsessivo de uma eventualidade ocorrer caso esqueça de verificar; Lili (Nuria Herrero), a instrutora de ginástica que desde o falecimento de seu pai desenvolveu a compulsão incontrolável por repetir sílabas, palavras ou frases; e Otto (Adrián Lastra) um desenhista que tem uma obsessão pela organização e simetria, além de não conseguir caminhar sobre linhas

Ao se depararem na mesma condição, Otto sugere que eles comecem a se conhecer, como se para quebrar o gelo, até que o psiquiatra realmente chegue para a consulta. É quando por meio de cenas em flashbacks que os personagens contam as situações ápices de seus transtornos e, assim, numa espécie de terapia em grupo, os pacientes começam a compartilhar as “engraçadas” situações de seu cotidiano.

O riso do telespectador é quase incontrolável, devido, principalmente, às representações caricaturais de cada TOC e a dinâmica ágil da edição das cenas. Toc Toc (2017) tem direção de Vicente Villanueva e é uma adaptação homônima da peça teatral do dramaturgo Laurent Baffie. Com um roteiro inteligente e bem estruturado, a produção espanhola trata de maneira leve e com muito humor um assunto delicado que são os percalços vivenciados por uma pessoa com transtornos compulsivos.

Apesar divertido, o filme não é apelativo e em nenhum momento ridiculariza os protagonistas. Tanto que deixa nas entrelinhas das partilhas dos personagens algumas reflexões sobre a solidão e a angústia causadas pelas obsessões. De tal modo que a descoberta de um grupo que acolhe e compreende as singularidades de cada indivíduo pode ser a chave para um melhor convívio em sociedade.

 

TOC TOC: RISADAS E REFLEXÕES SOBRE AS OBSESSÕES
4.8Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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