Quem supera o passo lento e morno do primeiro episódio de “The Alienist”, que chegou no fim de abril na Netflix, ganha uma enorme surpresa. A série de dez episódios, lançada no início do ano na TNT, faz um ótimo trabalho em vários aspectos, indo além de uma boa série policial. De aspectos técnicos ao roteiro e as atuações, é um trabalho muito bem elaborado que merece ser assistido com atenção.

O início da série nos introduz no contexto de uma Nova York ansiosa pela chegada do século XX. Em 1986, fotografias e os primeiros filmes são tratados como curiosidades, atrações de feiras. A abertura mostra o início da construção de grandes prédios em uma cidade ainda sombria, sem luz elétrica. Esses aspectos são muito bem trabalhados em cenário e fotografia, com ecos de “Penny Dreadful”, mas com os pés bem fixos na realidade. A escuridão aqui não é sobrenatural, mas tão misteriosa quanto. A produção conta com o nome de Cary Fukunaga, de “True Detective”, e o diretor de fotografia PJ. Dillon (“Penny Dreadful”, “Vikings” e “Game Of Thrones”), para se ter uma ideia da construção de atmosfera em “The Alienist”.

A história (baseada no livro de mesmo nome do historiador Caleb Carr) gira em torno do alienista Laszlo Kreizler, interpretado por Daniel Brühl. Um alienista estuda as pessoas que estão “alienadas” da realidade, como uma especialidade da psicologia. Ao lado do desenhista John Moore (Luke Evans), contando com a ajuda da primeira mulher a trabalhar na Polícia de Nova York, Sara Howard (Dakota Fanning), eles buscam resolver uma série de assassinatos. Nisso, se misturam diversos problemas: as vítimas são garotos prostitutos, o que faz boa parte da força policial se recusar a investigar os casos por descaso com os assassinados; o alienista buscando resolver o caso antes da polícia não é visto com bom olhos, com seus métodos excêntricos.

Além disso, quem assiste tem uma ideia clara de que o assassino é um serial killer, mas os investigadores, não. Pouco se conhecia sobre doenças mentais, e não se estudavam temas como assassinatos em série. A desconfiança de Kreizler que um mesmo homem matou e pode voltar a matar, baseado em traços repetitivos, quase não é compreendida por seus companheiros, muito menos por seus opositores.

Nesse ponto, a série lembra muito “Mindhunter”, excelente produção da Netflix. A intuição dos investigadores ajuda a conectar pequenos detalhes dos casos para construir um perfil de assassino, sem terem contato com qualquer tipo de caso anterior ou estudo como guia, o que torna cada descoberta uma peça essencial no quebra-cabeça.

Durante as investigações, também nos deparamos com dramas pessoais, mas tão bem colocados que não atrapalham a trama principal. Inclusive, tornam-se essenciais. Entender como funciona a mente de Kreizler e as relações que estabelece, longe de ser um detetive excêntrico e querido como o Sherlock Holmes de Benedict Cumberbatch em “Sherlock”, mas abusivo e egoísta. Outros momentos representam as dificuldades de diversos setores da sociedade em serem respeitados, desde as vítimas até os policiais que auxiliam o trio e são desmerecidos na corporação por serem judeus, por exemplo.

Até personagens secundários são bem elaborados, com suas nuances bem colocadas, ainda que muitas vezes, apenas com olhares – cada detalhe importa em “The Alienist”.O elenco, no primeiro episódio, estava fraco e desconexo, numa série que ainda não parecia vingar. Mas já no segundo, se percebe uma melhora gigantesca. Fanning rouba a cena em diversos momentos, mas rivaliza com Brühl, em uma dinâmica muito bem construída entre os atores. Até o elenco de adolescentes traz uma surpresa com atuações memoráveis.

Muito se especula sobre uma segunda temporada, e há grandes indicativos. “The Alienist” é só o primeiro livro de uma – até o momento – trilogia de Caleb Carr, que já tem outros programados. A TNT, que produziu a série, alcançou grandes números de audiência e críticas positivas. Até lá, vale a pena passar do primeiro episódio para assistir uma ótima série.

The Alienist é mais do que um bom policial
4.5Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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