Amado pela crítica e por fãs fervorosos, a série “Hannibal”, que acompanhava os primeiros encontros do assassino em série Hannibal Lecter com o detetive Will Graham, não conquistou o grande público. Com baixa audiência, a terceira temporada acabou sendo a última – o criador Bryan Fuller até tentou acertar uma quarta com Netflix, mas não aconteceu. A parte final da série (que foi ao ar na segunda metade de 2015) acabou de estrear no serviço de streaming, dando aos fãs as últimas e chocantes receitas do canibal mais famoso da cultura pop.

Mas vale a pena assistir esta última temporada? Ou ainda: quem nem começou, vai poder aproveitar a série? Abaixo, alguns bons motivos para terminar de assistir a história (evitando ao máximo os spoilers).

Os livros

A terceira temporada é a que mais se baseia nos livros de Thomas Harris – e ao mesmo tempo, os subverte completamente. A série, no início, se inspirou nos personagens que aparecem em “Dragão Vermelho” (1981) para contar uma história prévia. Na obra, Hannibal e Will já se conhecem, e alguns detalhes desse histórico permeiam as páginas. Na terceira temporada, há elementos que seriam de “Hannibal” (1999), terceiro da quadrilogia, usados fora de ordem cronológica, alimentando a dualidade entre os personagens principais.

“O Silêncio dos Inocentes” (1988) é evitado propositalmente, pois é nele que surge Clarice Starling, deixada de fora da série. A personagem é registrada do estúdio MGM e não poderia ser usada pela NBC. Parte da história de Clarice do terceiro livro é vivida por Will (Hugh Dancy), parte por Bedelia Du Maurier (Gillian Anderson).

A tensão entre Hannibal (Mads Mikkelsen) e Will Graham, que vinha “cozinhando” nas duas temporadas, explode nesta terceira. A relação dos dois é uma das mais complexas da TV e alcança seu clímax. Admiração, ódio, amor e até um tom paternal entre os dois se misturam, de forma maestral, que nem Thomas Harris foi capaz de desenvolver.

Personagens

Até os personagens secundários ganham importantes reviravoltas nesta terceira temporada. Alana Bloom (Caroline Dhavernas) desabrocha, mesmo que em pouco tempo de tela, ganhando maior importância e valorizando histórias mal explicadas nos livros. A série amarra bem as pontas soltas por Harris de maneira criativa.

Hannibal está no auge de sua prepotência, o que o coloca em grandes riscos. Will aprende a lidar melhor com suas alucinações, usando-as a seu favor na caçada ao canibal, ainda que em detrimento de sua sanidade. Mason Verger (Joe Anderson, cobrindo a saída de Michael Pitt que fez o personagem na segunda temporada) é o catalisador de eventos da primeira fase da temporada, cruel e insano.

Os primeiros episódios contam ainda com Chiyoh (Tao Okamoto), personagem de “Hannibal – A Origem do Mal”, livro que trata da infância e adolescência de Hannibal. Ela faz um pequeno e importante papel, revelando detalhes do passado que podem ajudar Will a entender seu inimigo. Sua origem é bem modificada, mas pensando pelo caminho da série, não deixa de ser interessante.

Visual

Os aspectos visuais de “Hannibal” são uma atração à parte. Sejam os closes no preparo de pratos incríveis, seja nas alucinações – que neste momento, não são mais exclusividade de Will. Até a gota de sangue que cai em slow-motion aparece, em excesso talvez, mas uma mania de Fuller que os fãs com certeza vão perdoar.

Com parte da temporada se passando na Itália, e quase toda ela valorizando obras de arte, não se poderia esperar menos destes 13 episódios. Até os nomes dos episódios, geralmente do mundo da gastronomia, acabam se alterando na segunda metade. Fuller aposta no surrealismo em vários momentos. É difícil entender a trama se assistir distraído. A simbologia criada pelo show também é forte aqui, e essencial para entender o que cada personagem passa. “Hannibal” só usa diálogo quando necessário e se estabeleceu assim, com personagens que não discutem sentimentos, mas os vivem nas tramas visuais.

A trama

A temporada é dividida em duas partes: a primeira conta o que aconteceu aos personagens após o sanguinolento episódio “Mizumono”, que encerrou a segunda temporada. Não se sabe quem sobreviveu ou não, e os primeiros episódios respondem a estas perguntas. Em seguida, a caçada por Hannibal continua. Nenhum personagem que cruza com o assassino passa impune. Física ou psicologicamente, todos pagam.

Mas é justamente esse Hannibal, tão confiante de si, que pode cometer erros simples, logo no primeiro episódio (“Antipasto”) já percebemos suas atitudes mais relapsas, de alguém que não espera que seus inimigos sejam capazes de voltar do mundo dos mortos. Ele está em um ambiente que já visitou antes, e um policial local se lembra de suas ações vinte anos atrás.

O Dragão Vermelho

A segunda parte da temporada revela o Dragão Vermelho, o assassino chamado pela polícia como o Fada do Dente. Aqui, a série entra a fundo no livro “Dragão Vermelho”, adaptando algumas cenas com fidelidade, sem deixar de lado toda a mitologia do show. Para os fãs do livro, é um deleite. As situações de tensão ficam elevadas, e o perigo do Dragão Vermelho é sentido a cada cena, com a atuação ótima de Richard Armitage.

O assassino tem uma fixação pelos quadros de William Blake que mostram o Dragão Vermelho, e a série capta com perfeição a atmosfera das pinturas assustadoras e grandiosas.

O fim

Com o cancelamento da série, há um desestímulo em assistir a última temporada, já que existe a impressão que não se tem um final. Na verdade, as cenas que encerram esta temporada funcionam muito bem como o fim de “Hannibal”. Há a possibilidade de se continuar, abrindo novos caminhos aos personagens, como também pode-se encarar como o final definitivo, sem prejudicar toda a experiência. A maioria dos personagens encerram seus arcos, que foram muito além do planejado por Thomas Harris nos livros. E com a maestria de Bryan Fuller. Definitivamente, uma série que vale a pena ser assistida e, mesmo sem uma legião de fãs, segue como um marco da televisão.

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