Das recordações da minha infância, tenho gravada em minha mente uma que me é claríssima. Meus pais me presenteando com uma coleção de livrinhos de histórias infantis, entre eles um em especial  chamado “Pele de Asno”. Ele contava sobre uma princesa que saia escondida pelas ruas da capital de seu império, vestida com uma pele de asno para fazer o bem aos seus súditos, coisa que seu pai, o rei, esquecia de fazer. Mais clichê que isso, impossível.

Quando ganhei esses livros de presente, não sabia ler. Volta e meia perturbava minha mãe para que ela os lesse para mim. Quando ela não podia fazer, eu agarrava os livrinhos e andava  com eles embaixo do braço, olhando as ilustrações e imaginando o desenrolar das histórias. Com o tempo fui aprendendo a reconhecer as letras. E assim, aprendi a ler.

Como prêmio por ser capaz de fazer isso (eu li as histórias para os meus pais que ficaram bem felizes quando descobriram que eu era capaz de ler sozinha) ganhei o direito de ler gibis. Meus favoritos eram os de super-heróis (eu amava os X-Men desenhados pelo Stan Lee) e também os da Turma da Mônica. Depois dos gibis, ganhei o privilégio de ler qualquer coisa que eu quisesse.

Meus pais nunca impediram meu direito de ler. Eu lia desde “Pele de Asno” até os livrinhos de faroeste que meu pai colecionava, passando por “Conan, o Bárbaro”, “A Saga da Ninhada” e histórias do Cebolinha e do Chico Bento. Eu só tinha que explicar uma coisa: porque razão não queria ler mais algum livro, caso iniciasse e depois desistisse.  Em geral, dizer que não tinha entendido ou gostado da história bastava. E quando isso acontecia, ganhava outra coisa para ler.

Meu primeiro contato com a censura aconteceu na escola. Eu tinha 09 anos de idade e estava no que hoje seria o 3º ano do ensino fundamental. Minha escola tinha a chamada “hora da leitura” onde a professora nos levava até a biblioteca e nós podíamos escolher um livrinho para levar para casa e ler. Esse livro seria devolvido na semana seguinte e levaríamos outro em seu lugar.

Eu estava andando no meio das estantes daquela salinha apertada, mas que para mim parecia um universo porque tinha muitos mais livros do que imaginava que um dia poderia possuir, quando me deparei com um livro cujo título me chamou a atenção: “O Conde de Monte Cristo”. O autor, Alexandre Dumas. Gostei do título… Eu sabia que condes faziam parte do mundo das princesas. Lembrei de “Pele de Asno” e agarrei o livro com as duas mãos, levando-o até a professora que fazia o papel da bibliotecária.

Para minha tristeza, ela disse que não poderia levar o livro comigo. Não era adequado para a minha idade. Foi então que cometi o meu único ato de rebeldia no sistema educacional: saí da escola e fui para casa, que ficava a 3 quadras distância. Quando cheguei, expliquei o ocorrido a minha mãe. Ela me pegou pela mão e me levou de volta à escola.

Lá chegando fomos direto para a biblioteca. Então ela questionou a professora sobre o motivo de eu não poder ler o livro que eu queria. Quando a professora explicou, lembro de minha mãe sorrindo e dizendo: “Pode dar o livro para ela. Se ela quer ler esse livro ela vai ler esse livro”. Sob o olhar incrédulo daquela mulher da qual nem lembro o nome, saí da escola com “O Conde de Monte Cristo” embaixo do braço, muito feliz. Meu único compromisso foi ler o livro. Minha mãe me disse que, já que eu tinha feito a escolha, deveria lê-lo por mais difícil que fosse. Depois desse dia, até o momento em que completei o 9º ano naquela mesma escola, li “O Conde de Monte Cristo” pelo menos uma vez ao ano. Li até decorar alguns trechos e saber o que aconteceria com Edmundo Dantés antes de virar a próxima página.

Bem, agora alguém pode perguntar porque estou escrevendo sobre isso. Não é por nada além de dizer que, na maior parte das vezes o incentivo para a formação do leitor começa em casa. E começa pelo exemplo que recebemos dos nossos pais. Não adianta querer que seu filho seja leitor se você mesmo não é. E é muito importante também, apoiar o ato da leitura para que o universo da literatura se abra diante dos olhos de quem está procurando este ambiente.

 

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