“Please like me” é honesta e dolorosa até mesmo no pedido sincero em seu título. Seu nome evidencia logo o que podemos esperar da série australiana ao longo de suas quatro temporadas. O protagonista Josh muitas vezes é narcisista, mimado, irritante e egoísta. É inseguro e fala demais, além de ser pouco empático e ter um senso de humor duvidoso e as vezes cruel. É fácil odiar Josh e ao mesmo tempo fácil amá-lo. Dá pra se irritar com a forma como o personagem age, mas sentir empatia e se identificar com coisas que ele sente. O próprio criador e roteirista, Josh Tomas, é quem protagoniza a série e parece ter total consciência disso e quer deixar claro logo de cara. A súplica no título da série não é honesta e direta o suficiente?

“Por favor, goste de mim” é mais que um recado. É mais que o pedido de uma pessoa insegura tentando ser amada e se encaixar em um mundo onde se sente deslocado. E disso Josh entende. É um jovem adulto sem perspectivas. Um jovem tentando lidar com a sexualidade, seus relacionamentos, a autoestima baixa e um combo de todas as inseguranças e problemas causados pelo mundo moderno. Josh não terminou a faculdade, não tem emprego e mora com um amigo em uma casa cujo aluguel é pago por seu pai. Aliás, são os personagens secundários que fazem com que “Please like me” seja tão diversa e especial. São esses personagens, seus dilemas e características que dão escopo pra que tantos assuntos importantes e distintos sejam abordados.

“Um retrato sincero de uma geração que enfrenta certos problemas e tenta lidar de foma aberta sobre eles.”

É uma série engraçada e reflexiva, que aborda assuntos sérios de forma despretensiosa, mas direta. É natural, mas cruel. Um retrato sincero de uma geração que enfrenta certos problemas e tenta lidar de foma aberta sobre eles. Além da sexualidade de Josh, um dos assuntos mais recorrentes da série são as doenças mentais. Em uma trama que fala sobre relacionamento aberto, feminismo, homofobia, racismo, aborto, câncer, doenças sexualmente transmissíveis, seus maiores trunfos realmente são falar sobre temas como suicídio, ansiedade, transtorno bipolar e depressão e a forma como a morte e o luto fazem parte da trama.

O episódio piloto funciona bem como um parâmetro de como o personagem lida com as coisas em geral e principalmente com a doença mental da mãe. Nele Josh é confrontado pela namorada a lidar com sua própria sexualidade, tem a primeira relação sexual com um homem — desajeitada, confusa, constrangedora — e descobre que sua mãe está no hospital após uma frustrada tentativa de suicídio. A personalidade e inconstância do protagonista é exposta de forma genuína. A depressão e bipolaridade da mãe de Josh durante as temporadas é um dos retratos mais fiéis e dolorosos da doença já vistos em séries de TV e às vezes o comportamento de Josh é um espelho de como a sociedade lida com o assunto: com desinformação e crueldade.

Toda a série está disponível no catálogo da Netflix. Leve o título a sério. Não desista no primeiro episódio se achar que Josh é uma daquelas pessoas que você não gostaria de ter como amigo. Não desista no primeiro episódio se achar que é uma mera série LGBT querendo soar pretensiosa com um protagonista chato. A sexualidade de Josh está longe de ser o foco e principal condutor de tramas da série. Sua sexualidade e relacionamentos tornam-se banais diante da quantidade e importância dos demais temas tratados na série. Por favor, goste de Josh e de Please like me.

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