Descrever um indivíduo através de palavras já é um desafio, que dirá reconstruir a identidade de alguém, que traz em sua essência um comportamento estoico, apático, disciplinado e com a necessidade absurda de viver em conformidade às leis do destino. Um indivíduo com desprezo pelo social e impassível às misérias da sociedade. Seria este um personagem “digno” de uma obra contemporânea? José Saramago aposta que sim. E, ainda, aceita a provocativa de escrever sobre este “outro eu” de Fernando Pessoa, que até 1935 (ano em que faleceu), não havia concluído a biografia de Ricardo Reis.

No livro O ano da Morte de Ricardo Reis (Companhia das Letras, 1984), o autor utiliza a figura do narrador, sob uma perspectiva paródica e provocativa, para evocar elementos clássicos de Ricardo Reis e confrontá-los com o período contemporâneo. Além disso, é o narrador quem conduz os leitores por um labirinto repleto de jogos textuais e descreve nesta narrativa ficcional a nova realidade do poeta clássico.

Nestes artigos será lançado um olhar sobre algumas das inspirações de Saramago ao escrever seu romance sobre esta figura literária, abordando desde a caracterização de Ricardo Reis, a presença fantasmagórica de Fernando Pessoa e até as relações intertextuais apresentadas pela obra. Comecemos, então, pelas inspirações de Pessoa e Saramago.

 

  • Reis: o poeta de Pessoa

A inspiração do escritor português para romancear a história do referido heterônimo passa, primeiramente, pela vontade de desvendar o processo de criação de Fernando Pessoa. Sobre a gênesis de seus heterônimos, Pessoa escreveu uma longa carta ao escritor e crítico literário Adolfo Casais Monteiro, na qual declara que a origem de cada um deles estava em sua

 

tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenômenos – felizmente para mim e para os outros – mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contato com os outros; fazem explosão para dentro e vivo-os eu a sós comigo (PESSOA apud MOISÉS, 1988, p.144).

 

A partir dessa explosão de personalidades e num momento de crise entre o tradicional e a modernidade, surge o heterônimo Ricardo Reis, que traz em si toda a “disciplina mental” de seu criador. De acordo com Pessoa, Reis nasceu em 1887, na cidade do Porto, em Portugal. Foi educado em um colégio de jesuítas, era médico e até a escritura da referida carta estava no Brasil, onde vivia desde 1919, auto-exilado no Rio de Janeiro.

Reis era “um latinista por educação alheia e um semi-helenista por educação própria” (PESSOA, 1986). Como estudioso da língua e da antiguidade gregas, apresentava um estilo clássico e versava seus poemas em “Odes”, gênero lírico de métrica perfeita, cujas temáticas abordavam sobre alguns temas pagãos, as alusões mitológicas, as reflexões sobre a passagem rápida do tempo, a busca pela paz e pelos simples prazeres da vida sem pensar no futuro. Suas poesias ainda eram inspiradas nas relações com suas musas: Lídia, Neera e Cloe.

Doutrinado pelo estoicismo (que tem como ideal ético a “apatia”) e pela antiga crença nos deuses gregos, enquanto disciplinadores de suas emoções e sentimentos, Reis tem como filosofia de vida o carpe diem (expressão que vem do latim, de um poema de Horácio, e que é popularmente traduzida como “aproveite o momento”). Apesar disso, sua busca pela felicidade é um tanto letárgica, já que não cede a impulsos ou a instintos, muito menos ao se rende ao envolvimento emocional.

O escritor controla muito bem suas paixões, o que pode ser percebido por suas atitudes indiferentes e conformistas, de forma que não deixa que nada perturbe sua serenidade ou sua razão. Assim, Reis seria o poeta “beira rio”, que vive uma vida sem assombros ou preocupações, “como se houvesse alcançado, mercê do autodomínio, a tranquilidade perante a natureza e, em consequência, pudesse entregar-se à fruição plena e suave do seu destino” (MOISÉS, 1998, p.64).

Ao entendermos algumas características de Ricardo Reis, por Fernando Pessoa, passamos agora a compreender a visão de seu (re)criador português.

 

  • Reis: a figura dramática de Saramago

Em O ano da morte de Ricardo Reis, é possível perceber que o protagonista traz várias particularidades do poeta. No romance ele é apresentado como um homem pontual, zeloso com seus pertences e aparência. Conhecedor de regras e princípios culturais europeus, tem sua rotina regularizada pelos rituais e convenções sociais. Um exemplo é o trecho que retrata o momento do jantar no hotel Bragança.


Quase todas as mesas estão ocupadas. Ricardo Reis parara à entrada, o maitre veio buscá-lo, guiou-o, A sua mesa, senhor doutor, já o sabia, é onde sempre fica, mas a vida não se sabe o que seja sem estes e outros rituais, ajoelhe e diga a oração, descubra-se à passagem da bandeira, sente-se, desdobre o guardanapo em cima dos joelhos, se olhar para quem o rodeia faça-o discretamente, cumprimente no caso de conhecer alguém, assim procede Ricardo Reis
 (SARAMAGO, 1988, p.104).

 

O narrador faz uma relação satírica entre os ritos sociais metódicos de Reis e sua realidade. Ele sabe onde está a localização exata de seu lugar naquele contexto social (ou seja, sua mesa), mas desconhece seu papel na vida, já que não “se sabe o que seja sem estes e outros rituais”. Além disso, compara tal situação a uma oração e de forma irônica utiliza verbos imperativos para descrever a cena: “sente-se”, “desdobre” e “cumprimente”.

No livro, Reis se torna um entre outros seres ficcionais. Não é mais o autor de suas histórias, poemas, pensamentos ou atos. É tão somente um personagem de uma trama, onde encontra, por exemplo, a personificação de Lídia, uma das musas de suas “Odes”. O narrador se aproveita de tal figura feminina, para demonstrar que mesmo inserido em uma nova realidade, Reis mantém suas características e personalidade apática frente aos acontecimentos. Primeiro, porque Lídia não é mais a sua musa intocável. Agora ela é uma pessoa comum, que trabalha como camareira no hotel onde está hospedado.

Entretanto, apesar de ele ser um cliente, ou seja, aquele com o “direto” de “dar às ordens” à funcionária do estabelecimento, é Lídia quem dita as regras, especialmente, na sua relação amorosa com Reis. Isso pode ser observado na cena em que ela toma a iniciativa e coloca dois travesseiros na cama de Reis. É com esse um sinal sutil que ela demonstra seu interesse por visitá-lo no cair da noite.

Para o narrador, “não podia ser mais claro o recado, faltava saber até que ponto se tornaria explícito” (SARAMAGO, 1988, p.98). Então, ao anoitecer, Lídia vai aos aposentos de Reis. O narrador descreve a cena:

 

Deitou-se, apagou a luz, deixara ficar a segunda almofada, fechou os olhos com força, vem, sono, vem, mas o sono não vinha. […] Levantou-se bruscamente, e, mesmo às escuras, guiando-se pela luminosidade difusa que se filtrava pelas janelas, foi soltar o trinco da porta, depois encostou-a devagar, parece fechada e não está, basta que apoiemos nela sutilmente a mão. Tornou-se a deixar-se, isto é uma criancice, um homem, se quer uma coisa, não a deixa ao acaso, faz por alcançá-la. […] aberta foi a porta deste quarto, em silêncio, fechada está, um vulto atravessa tenteando, para à beira da cama, a mão de Ricardo Reis avança e encontra uma mão gelada, puxou-a, Lídia treme, só sabe dizer, Tenho frio, e ele cala-se, está a pensar se deve ou não beijá-la na boca, que triste pensamento (SARAMAGO, 1988, p.99).

 

Na cena transcrita acima, é possível perceber que Reis até cogita tomar alguma atitude: “um homem, se quer uma coisa, não a deixa ao acaso, faz por alcançá-la”. Contudo tal posicionamento não condiz com seus valores e, por isso, a frase poderia ser apenas um pensamento de Reis. A única ação dele é procurar, alcançar e segurar a mão de Lídia, que está gelada, demonstrando de certa maneira um pouco de nervosismo.

E, logo depois de segurá-la ele se cala, ao passo que Lídia menciona (ou sugere?) “tenho frio”. Como amantes esse seria o exato momento de vivenciarem seu amor, mas Reis apenas divaga sobre o que deveria fazer em tal situação. É quando ao final da sequência o narrador revela: “está a pensar se deve ou não beijá-la na boca, que triste pensamento”.

A frase vem repleta de ironia frente à postura contemplativa e apática de Reis às emoções daquela situação. Este e outros comentários demonstram que este narrador pode ser caracterizado como “onisciente intruso”, já que em várias situações “interrompe a narração dos fatos ou a descrição de personagens e ambientes para tecer considerações e emitir julgamentos de valor” (p.60), conforme descreve Salvatore D’Onofrio, em seu livro Teoria do texto 1: Prolegômenos e teoria narrativa (1995). Tal postura sarcástica e irônica do narrador percorre toda a obra, enaltecendo o posicionamento apático de Reis em várias cenas, sendo um deleite para os leitores e que rende boas risadas.

 

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Então, aproveite! Alguns trechos estão disponíveis no Google Books.

 


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UM OLHAR SOBRE O JOGO METAFICCIONAL DE ‘O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS’

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Obras citadas:

MOISÉS, Massaud. Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge. In.:______. Fernando Pessoa: o espelho e a esfinge. São Paulo: Editora Cultrix, 2ª ed., 1998, Pp.63-65.

PESSOA, Fernando. Carta a Adolfo Casais Monteiro acerca dos heteronômios. In.: MOISÉS, Massaud. O banqueiro anarquista e outras prosas. São Paulo: Cultrix – Editora da Universidade de São Paulo, 2º ed, 1988, Pp. 141-151.

 

AS INSPIRAÇÕES DE SARAMAGO EM 'O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS'
4.6Pontuação geral
CAPA
REVISÃO
DIAGRAMAÇÃO
ORIGINALIDADE
PERSONAGENS
DESENVOLVIMENTO

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