Nascido em Alagoas, criado por mulheres de fibra (mãe, avó e tias) e residente, desde 1994, em Dourados, Mato Grosso do Sul, o escritor, editor, roteirista e jornalista Luciano Serafim traz, em seus poemas, a representação do nordeste, do urbano, do cotidiano, do efêmero e das mulheres de sua vida.

Autor de 6 livros, dentre eles 4 de poemas, Serafim “tem a destreza em lidar com as palavras, de desobedecer seus sentidos, de, com uma (palavra), fazer a gente pensar quinhentas…” (LIMBERTI in Mordendo as Lábias, 2006)

Seu primeiro livro, “Eu, entre nós”, lançado em 2002, contém 96 poemas e é divido em 3 partes: Última cinza da solidão e outras poesias espalhadas; Osmose e outros fluídos disseminados; @ onde e outras rotas andarilhas.

Segundo a Profª Aurea Rita, da Universidade Federal da Grande Dourados, o autor apresenta em seu primeiro livro  um “estilo telégrafo, sintético, compondo a costura dos textos, facilitando a descoberta de segredos, de sentidos que emergem e se iluminam pelo olhar do leitor” (FERREIRA in Eu, entre nó,. 2002). Este estilo resumido e denso se repete nos outros próximos dois livros: Mordendo as lábias (2006) e Raiz Transeunte (2013); assim, os poemas mais longos apresentados em “Eu, entre nós”, vão perdendo cada vez mais o espaço e os poemas mais condensados, em palavras mínimas, vão preenchendo o vazio.

Com isso, o poeta alagoano, se dá o direito de brincar com as palavras, trazendo para os poemas espaços em branco, que, ao invés de trazerem a ausência da palavra, preenchem o sentido “do que visualmente falta”. O ritmo permeado por sons e pausas, destacados pelas reflexões e entonações dos versos, às vezes, construídos minimamente por uma léxico só, faz com que o leitor vá além das palavras soltas nas folhas e crie uma tessitura, costure os sentidos dialogando e intertextualizando com o que lhe é apresentado.

LENDA

O eu a procura de mim
junto aos desconhecidos
achou-se
outro ninguém
e sentiu inveja de Narciso:
não tinha onde se afogar (Eu, entre nós. p.46)

 

a noite me aborta

há porto
perto da lua

e um aperto
em meu peito
mas eu não parto

porque a rua me acolhe
de pernas abertas (Mordendo as Lábias, 2006)

Disputa

  – Eu também sei magoar (Raiz Transeunte, 2013)

O segundo livro, Mordendo as Lábias (2006), segue, como dito anteriormente, denso, com poemas curtos, entretanto, repleto de sentido. Poemas pequenos que variam de quatro a dois versos. Versos com três, duas, uma palavra só.

Também dividido por duas sessões, sede e fome, o copilado de poemas trata de questões que são essenciais a vida. A sede representada em poemas como “Aguardente” (p.16), “Visceras” (p.14) e nos demais 31 poemas que compõe esta primeira parte, traz a sede de amor, muitas vezes não saciada. A cada poema que se lê, percebe-se mais SEDE do que SACIEDADE. Uma busca constante que não se finda.

 

eu ávido
você árido

POLOS INDISPOSTOS

 

A segunda parte, fome, com 14 poemas, também traz insaciedade. Uma falta que se equipara a sede, que, segundo Limberti “percorrem paralelamente, a uma distância mais ou menos constante, a trilha da materialidade da vida, de certa forma ameaçando-a”. Essa fome, que Serafim nos apresenta, está exposta na liberdade não conquistada, na busca de uma política limpa, fazendo com que as emoções, os amores de sede, deem lugar ao protesto e à ironia.

 

abrigo-me
      sob
            asas
depenadas

arrependido
         apenas
de não ter

       arcado
meu
        vôo
CHÃO (p. 54)

não há vacina
pro vírus
das cédulas?!
CAIXA 2(p. 59)

Diferentemente de seu primeiro lívro, este segundo não dá aos “títulos” lugares pré-definidos, ao topo de cada página, dando-nos uma pré-concepção do tema. Eles se misturam ao poema, variam entre início e rodapé. Muitas vezes, nem estão colocados, sendo que para se saber o nome deve-se recorrer ao sumário. “Até isso o Serafim faz com a gente, ler o livro de trás pra frente e dar imporância para o sumário” afirma Limberti.

No terceiro livro, Raiz Transeunte (2013), o estilo de Luciano Serafim parece já estar preestabelecido. Um livro com duas partes: raiz transeunte e amor?ó as ideias. Poemas curtos, salvo alguns que ocupam mais de que página e os títulos tomam de vez o rodapé dos poemas, entretanto, há mais poemas sem títulos expostos em primeira estância.]

 

descobrir
a esta altura
que viver
é como empinar pipas:
tem-se a linha nas mãos,
mas não se pode
controlar os ventos

(Viver, p. 15)

A diferença deste livro para os outros dois anteriores se dá na INDEPENDÊNCIA. Do autopublicar-se. De permitir-se ser poeta e editor. Permitir-se ser raiz de seus poemas, mas poder transitar por entre-lugares, sendo eles o lugar de se estabelecer seu próprio entendedor de quando e como seus versos serão apresentados aos leitores.

“Raiz transeunte revela-se um título e uma obra abissal e, paradoxalmente, prazerosa de ler. Um livro potente por transgredir o que está posto, estabelecido, desde o seu conteúdo que aponta para o “entre” (dois seres, duas situações), para a fronteira, tomando esta como espaço de passagens, de expectativas, onde algo se reelabora e se refaz, até a sua forma de produção, edição e publicação de modo independente” (LOPES, 2017).

 

Já o mais recente trabalho do poeta, Sururu com coca-cola (2016), é o resultado do amadurecer e entender, com o tempo, suas raízes e suas mudanças. Sim, há um pouco de cada livro neste caldo de sururu. Não com poemas repetidos, mas com influências e aprendizado.

O aprendizado veio com o amadurecimento do projeto. Um projeto que ficou muitos anos guardado na gaveta e, num dado momento, a gaveta não teve mais condições de guardá-lo.

Sururu vem como reprentação desse nordeste cravado nas veias de Serafim, a Coca-Cola é o primeiro contato com o Mato Grosso do Sul. Sendo assim, o título remete ao permitir-se aprender coisas e sabores novos sem deixar pra trás as essências que o compuseram como ser.

Posso dizer que esta obra é muito mais que um grito e um aglomerado de palavras. Temos Vó Enedina (p.36), Maria Perigosa(p.65), a mãe e a tia(p.14). Temos mulheres sofridas, mulheres do sertão que na maior parte das vezes são as CHEFES da família, mostrando força, pulso firme e ao mesmo tempo carinho e afago. Temos a seca, a cultura, poemas que relatam comportamentos aceitáveis e não (de acordo com a sociedade em que é lido). meninos que “não têm medo de abismos”(p.44)

Em seu posfácio há um trecho que resume muito bem o gosto que tem o “Sururu com coca-cola”.

“[…] é marco de amadurecimento do poeta. E de tal forma que acaba por resultar em retrocesso. Espere o leitor que já me explico. Parece que Serafim tornou-se adulto como poeta para converter-se mais e mais em menino. Isso fica evidente quando comparamos o presente com o passado. Com efeito, tantos os livros de juventude Eu, entre nós (2002) e Mordendo as lábias (2006) quanto o recente Raiz Transeunte são portos provisórios no rumo desse Sururu com coca-cola. E aí aparece a transformação. A receita é a  mesma, mas o trato com os ingredientes, outro. O resultado é paradoxalmente uma maturidade de menino. Desarrumar, tornar-se humilde, obrigar-se ao fracasso por gosto e brincadeira, ser conciso – tudo isso é produto de uma poética madura e, ao mesmo tempo, calculadamente infantil” (PEREIRA in Sururu com coca-cola, 2016, p.84)

O que temos que ter claro em nossa mente é que esses poemas escritos por Serafim são muito mais do que querer exprimir opiniões. São relatos e representações de pessoas, de sujeitos, de indivíduos, de gente… gente como eu, como você e como Serafim.

Gente que sofre e renasce. Sangra e se cura. Constrói, desconstrói, se abandona e se reescreve a partir da lama.

Digo que poesia de Serafim é puro renascimento… puro renascimento.

QUEM É LUCIANO SERAFIM?

Luciano Serafim nasceu em Maceió, Alagoas. Viveu sua infância na Zona da Mata, mais precisamente nas cidades de Flexeiras e Messias (ora em casas de engenhos ora na cidade). Seu encontro com as palavras se deu nas estórias contadas pela sua mãe e sua avó. Estórias cheias de detalhes, em que o lobisomem e os fantasmas pareciam reais, para vó Enedina eles sempre foram.

Seu contato com a Escola se deu aos 9 anos e, mesmo assim, voou igual foguete nas palavras. Uma de suas professoras, Maria José, propôs a elaboração de um diário que, para alguns colegas, parecia “coisa de menina”. Serafim, diferente dos outros, encontrou naquele gênero textual uma forma de abrir as asas da sua imaginação e apresentar ao mundo, por meio de seu caderno, tudo aquilo que lhe encantava.

Seus cadernos, nesta época, não eram de marca, muito menos com capas estampando heróis ou personagens da mídia. Os cadernos de Serafim eram feitos por ele mesmo. Folhas aglomeradas simetricamente, serradas e costuradas. Capas de papelão e uma imensa possibilidade de folhas brancas para abraçar palavras e mais palavras. E, nessas folhas coladas, Luciano começou a escrever seus primeiros versos, primeiros contos.

Quando estava na 7ª Série, uma de suas professoras, que trabalhava nos Classificados do jornal “Gazeta de Alagoas”, convidou Luciano, mais dois colegas, para uma Edição Especial para o Dia das Crianças no Suplemento infantil “A Gazetinha”. Segundo o autor, eles ficaram uma semana no jornal, com o editor do caderno e foi aí que se apaixonou pelo Jornalismo.

Anos depois, mais precisamente em 1998, já na cidade de Dourados-MS, o escritor se tornou responsável pelas páginas de Opinião e Variedades do jornal Diário do Povo (atual Diário MS, em que desde 2017 o poeta é responsável pelo Caderno B).

Todo esse processo de viver em casa de engenhos; as histórias contadas pela mulheres de sua vida; os cadernos artesanais; o contato com os jornais e mudança para o Mato Grosso do Sul, geraram, de certa forma, produções literárias em forma de poemas e contos. Suas produções literárias são:

Eu, entre nós, 2002 (poemas)

Outro dia a gente sai, 2003 (contos)

Mordendo as lábias, 2006 (poemas)

Curumim do asfalto, 2008 (infantojuvenil)

Raiz transeunte, 2013 (poemas)

Sururu com coca-cola, 2016 (poemas)

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