O conflito é o que faz a história andar. Um romance pode ter vários núcleos de conflito, sendo que há o principal e os secundários. Nos contos, por outro lado, há quase sempre apenas um núcleo de conflito.

No caso dos romances, o conflito principal escrito na sinopse, depois da capa, será o primeiro contato que o leitor vai ter com a história. Por exemplo, no livro Coração de Aço, do autor Brandon Sanderson, temos ditadores superpoderosos que transformaram o mundo em uma distopia, e o garoto David, que teve o pai assassinado por um desses ditadores na infância, se prepara para uma cruzada em que irá buscar vingança. No caso, o assassino do pai de David é o próprio Coração de Aço, e o conflito é justamente colocar um personagem comum, sem poderes e com todas as fraquezas de um humano normal, para enfrentar um ser praticamente onipotente.

E esse conflito principal nos faz engolir as páginas, sedentos pelo desfecho. Mas é claro que ele só será solucionado no final. Nesse meio tempo teremos o surgimento de outros conflitos: vilões menores, romances amorosos mal resolvidos, personagens com múltiplas faces e personalidades e várias outras coisas que fazem com que fiquemos presos no universo que Sanderson criou.

De tal modo, no romance temos o conflito principal, que é a primeira chamada para a obra, e o segundo contato que o leitor vai ter com o seu livro (lembre-se que a capa é o primeiro contato) e os conflitos secundários, que são os aspectos que fazem do romance um verdadeiro romance e não uma novela ou um conto.

E é aí que o conto se diferencia do romance. Se no romance nós temos vários núcleos de conflito, no conto teremos, em regra geral, um único. Vamos tomar como exemplo o conto Missa do Galo, de Machado de Assis. Nesse conto nós temos um marido que, claramente é adúltero, e sua mulher que vive submissa e nada pode fazer sobre as traições do marido. Nesse conto, qual é o conflito? Adultério? Talvez, mas não a do marido, mas sim a atmosfera que existe entre Conceição e Nogueira. Veja, em toda a conversa que Nogueira tem com Conceição, nada de fato ocorre, mas muitas coisas ficam subentendidas. E o conflito é justamente esse: aguçar a nossa curiosidade com o que poderia ter acontecido. É um conto de atmosfera, o desfecho não importa, o conflito está no meio da história, no decorrer dela.

Então o conflito existe tanto no romance quanto no conto, sendo que no romance ele tem mais desdobramentos, podendo existir tramas paralelas e diversos conflitos secundários, já no conto temos apenas um único núcleo de conflito.

E esses conflitos podem ser de atmosfera ou de desfecho. Você consegue entender a diferença entre a história de Sanderson com Coração de Aço e de Machado de Assis com A Missa do Galo? Em Coração de Aço, por mais que tenhamos diversos acontecimentos na história e desdobramentos de conflito, queremos saber uma única coisa: David vai conseguir completar a sua vingança e matar, de fato, Coração de Aço, como ele pretendia no começo da história? É claro que isso só vai ser revelado nas últimas páginas, e temos aí um núcleo de conflito de desfecho. Toda a história caminha para uma única direção. Veja, ela pode se ramificar no meio, apresentando ganchos para possíveis continuações, mas é o fim que importa, a pergunta de um milhão de dólares: David vai conseguir matar Coração de Aço?

Por outro lado, na obra de Machado de Assis, isso não acontece. O desfecho de Missa do Galo nada agrega à história. O que importa no conto de Assis é o que acontece no meio dele e as indagações que nos cria. O desfecho de Missa do Galo não muda o que aconteceu na história, portanto temos aí uma história com Conflito de Atmosfera.

Em suma, o conflito é algo essencial para todas as histórias. Crie um conflito memorável e você terá um livro que será impossível de não ler.

Para aprender mais sobre conflitos, recomendo o curso Escrita Criativa, do professor Marcelo Spalding.

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