A crítica às relações pessoais na era da internet é apenas uma das discussões propostas pelo filme “Medianeras”, produção argentina que ganhou no Brasil o subtítulo “Buenos Aires da era do amor virtual”. Há um contexto maior na obra, que se ramifica em temas como a comunicação interpessoal, doenças psicológicas e o papel da arquitetura na alienação. Foi o primeiro longa de Gustavo Taretto, lançado em 2011, baseado em um curta também dele, de 2005.

O nome em português pode desviar o foco do título original, que faz alusão aos espaços entre os prédios onde não existem janelas, e na Argentina, costumam ser usados para publicidade. E são essas medianeras que dão o primeiro tom do filme, revelando como a arquitetura das grandes cidades – em especial de Buenos Aires, que “deu as costas para o rio” – favorece o distanciamento. A falta de unidade entre construções, cada vez menores para que caibam cada vez mais prédios, a falta de espaço e a falta de janelas mais do que estimulam problemas como depressão e claustrofobia.

Essas doenças, não por acaso, são vividas pelos personagens Martín (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala). Ele, web designer depressivo, tenta sair de casa com mais frequência usando dicas do terapeuta, enquanto ela, arquiteta atuando fora da área organizando vitrines, é claustrofóbica. Mariana não sobe em elevadores, e não tem outra alternativa além de morar em prédios e subir pelas escadas.

Cada um tem um relacionamento marcante durante o filme: Martín com uma passeadora de cachorros que não para de mexer no celular e só consegue ver o que acontece consigo mesma,  Mariana com um colega da natação que desaparece ao menor sinal de dificuldade. A tecnologia não é vista como o grande problema, mas um catalisador da falta de conexão e a dificuldade de se comunicar com o outro. O primeiro contato entre os personagens principais se dá no virtual, apesar de terem se cruzado várias vezes no mundo real sem se darem conta. Como se o diretor dissesse que o virtual pode nos impedir de perceber a beleza do real, tão próxima. Closes fechados e uma maioria de cenas internas destaca essa escolha de Taretto.

A tecnologia de “Medianeras” fica um pouco datada quando assistido em 2018. O avanço rápido faz os celulares com botões de 2011 parecerem mais do que obsoletos. Hoje, com uma infinidade de aplicativos, o apagão que acontece na rua dos protagonistas nem seria um impedimento para a conversa. Talvez fosse ainda mais difícil colocar Martín e Mariana em contato atualmente. Mas a ideia principal de que as redes podem minar os relacionamentos reais se mantém firme.

O filme usa muitas metáforas rápidas, como pequenos textos narrados pelos personagens e ilustrados com cenas de Buenos Aires. Há desde plantas crescendo nos prédios até um acidente com o cachorro, o que acaba sendo um pouco excessivo e atrapalhando o desenvolvimento do filme, mas ainda assim encanta pela simplicidade e intimismo. Mariana, que terminou um longo relacionamento e tem dificuldade em seguir em frente, não por estar ligada ao ex mas por não saber mais como se relacionar, está presa em uma página do livro “Onde está Wally?”, “Wally na Cidade”, longe de ser coincidência. Essa imagem é bem destacada na publicidade do filme, mas quase esquecida durante a narrativa. Porém, é peça chave para entender “Medianeras” – e como seu diretor espera que o público termine o filme com um olhar mais atento ao seu redor.

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