Desde os primórdios da literatura, a curiosidade sempre foi um fator que moveu a humanidade e a levou a inúmeras descobertas. Seja na era Homérica, com as indagações da origem do mundo ou numa época mais recente com as histórias de Lovecraft, o ser humano sempre foi aficionado por aquilo que não conseguia entender. E isso se estendeu aos romances policiais. Iniciado por Poe com Dupin e aperfeiçoado por Doyle com Holmes, o romance policial se transformou na nova faceta da curiosidade humana em uma época em que a religião e a mitologia já não são mais suficientes para explicar o desconhecido.

Um crime elaborado em que a identidade do assassino pareça algo muito distante de ser descoberto, na era Homérica talvez fosse descrito como façanha de algum deus ou criatura mitológica. Porém, com uma mudança de paradigma surgiram os autores modernos, como Agatha Christie, que tiraram das mãos da mitologia a solução dos crimes que pareciam impossíveis e as passaram para detetives geniais, como Holmes. Mas, com o passar dos anos, as deduções quase milagrosas de Holmes já pareciam desgastadas. Para adequar os romances policiais ao leitor contemporâneo, precisava-se de uma figura mais plausível que agisse de acordo com a ciência dos dias atuais e mais humano, e aí surgiu Lyncoln Rhyme.

Não é mais aceitável, nos dias de hoje, que um detetive saiba exatamente de onde uma pessoa veio e o que estava fazendo, apenas por ver que suas botas estavam sujas de lama. Em vez disso, o detetive deve retirar uma amostra da lama e, ao analisar por meio de um microscópico e descobrir as propriedades químicas, aí então tirar conclusões significativas. Holmes deduzia a partir de observações e, muitas das vezes sem testes científicos – uma vez que na época não existia tecnologia para tanto –, e então já partia para as conclusões. Por outro lado, Rhyme obriga-se a não tirar qualquer conclusão antes de ter uma prova definitiva sobre alguma hipótese testada em laboratório. É claro que a intenção não é julgar a obra de Doyle, mas sim afirmar que uma história policial nos dias de hoje não pode se pautar unicamente nos detetives do século XIX.

Denzel Washington representando o criminologista tetraplégico Lyncoln Rhyme.

Talvez o leitor se lembre de Rhyme pelo filme de Phillip Noyce, com Angelina Jolie e Denzel Washington, mas a obra de Jeffery Deaver vai muito além da película de 2000. Lyncoln Rhyme é um detetive tetraplégico que trabalha em conjunto da polícia de Nova Iorque na investigação de crimes tão elaborados quanto os apresentados nas histórias de Christie ou Doyle. Apostando em um herói que não pode perseguir os bandidos, Deaver nos presenteou com um protagonista que tem como a única força a própria mente.

E é ao nos apresentar essa figura única e excêntrica que o autor toca em um outro ponto: a depressão. A doença torna Rhyme mais humano e mais próximo de nós que os antigos detetives da literatura. Por não conseguir mexer o corpo e ser limitado a uma cama e simples movimentos do pescoço, Rhyme odeia a própria vida e deseja por fim a ela. E a luta contra a depressão é uma das tramas da cultuada obra O Colecionador de Ossos. No início do livro somos apresentados a um detetive depressivo que busca meios de praticar a eutanásia. Mas é ao descobrir um assassino em série peculiar com motivações e modo de operação intrigante, que Rhyme desiste – por hora – da ideia e volta às investigações ao lado da polícia.

Denzel Washington ao lado de Angelina Jolie, representando respectivamente o criminologista Rhyme e a detetive Amelia Sachs.

Ao apresentar um detetive que não é invencível, ao contrário disso, passível de falhas, Deaver não nos apresentou apenas um romance policial, mas também uma verdadeira luta contra a depressão. Ao acompanhar a jornada de Rhyme, somos apresentados a uma das melhores histórias de mistério e suspense já contadas e, ao mesmo tempo, acompanhamos uma pessoa que estava à beira do suicídio, encontrar um novo motivo para querer estar vivo.

 E é aí que a série de Deaver acerta. Ao dialogar com as histórias de Poe, Christie e Doyle, o autor vai além. A depressão, tema recorrente nos livros da série, é abordada de forma natural e funciona como um dos antagonistas de Rhyme. Todavia, é com a ajuda de profissionais e amigos, que o detetive encontra a forma de escapar da doença e resolver os diversos crimes com os quais se depara.

Em suma, pode-se concluir que de fato, a curiosidade sempre moveu a humanidade. Seja na era Homérica ou nas histórias mais modernas. Mas essa curiosidade por muitas das vezes não abordava questões mais íntimas do indivíduo, como a depressão. E ao escrever a série de Rhyme, Deaver nos apresentou um espelho da psique do ser humano, com um vidro tão fino que pode se quebrar a qualquer momento e talvez acabemos cortados no processo. Mas a dor será a própria realidade e o sangramento a consequência de uma tão desenfreada curiosidade humana.

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