As vidas de dois capitães estão ligadas por tênues, porém significativas linhas no filme “Love”, do diretor William Eubank. Separados por quase 200 anos, Lee Briggs atua pela União na Guerra Civil Norte-Americana, enquanto Lee Miller é um astronauta enviado em missão solo para examinar uma estação espacial. Além dos nomes, os dois dividem uma importante ligação, que vai se desenrolando aos poucos durante o filme.

Estreado no Festival de Cinema Internacional de Santa Barbara em 2011, “Love” recebeu elogios pelo trabalho bem feito com baixo orçamento e criatividade na narrativa. Foi o primeira vez de Eubank na direção (ele também assina o roteiro) e conta com produção da banda Angels & Airwaves. O roteiro foi inspirado pelos discos “Love” e “Love: Part 2” , lançados pouco antes do filme e divulgados em conjunto.

As primeiras cenas apresentam a narrativa do capitão Lee Briggs (Bradley Horne), em um cenário de destruição da guerra, no qual sua tropa se vê cercada pelos inimigos. Com o fim da guerra próximo, ele recebe a missão de verificar um estranho objeto encontrado no deserto, e deixa para trás seus companheiros, que aguardam a morte certa. “Um homem só com vida pode ser uma homenagem para o restante”, fala seu general, como uma despedida. Colocada de maneira sutil, essa frase se torna central em “Love” até suas cenas finais.

Já o capitão Lee Miller (Gunner Wright), em 2039, chega na estação espacial que ele deve inspecionar. Pouco tempo após sua chegada, começa a ter problemas de contato com a base terrestre que, quando tem a oportunidade de contato, não explica o que acontece. Irritado, tenta reconectar os rádios, apenas para receber uma mensagem gravada, pedindo desculpas por não poder mandar uma equipe de resgate.

Anos vão se passando com Miller preso no espaço, vendo as luzes da Terra se apagando, e nada pode fazer além de imaginar algum destino desagradável. Porém, sua solidão já o consumiu. Desiste até mesmo de imaginar outras pessoas com ele, o que fazia através de fotos deixadas por tripulações anteriores.

O filme conta com diversas intersecções, como entrevistas com pessoas variadas sem nenhuma ligação entre si. Todos são homens, brancos, adultos ou idosos, como se representassem diferentes versões dos capitães do filme. Aparecem em momentos centrais, como quando Miller percebe que está sozinho e não consegue mais se comunicar, e um entrevistado começa a falar sobre como é estar por conta própria, e questionar sobre como saber qual o próximo passo a se dar.

” Somos criaturas sociais e precisamos interagir com pessoas; é por isso que nossas relações são tão importantes, tão cruciais para a existência”, explica um deles, “se você não se comunica com ninguém, seu próprio senso de realidade fica distorcido”. As entrevistas também funcionam como uma maneira de colocar em palavras os sentimentos de Miller, já que este não tem como conversar com ninguém. O filme é cheio de primeiros planos, principalmente de Miller nestes momentos de solidão, quando precisa falar, expor seus pensamentos e não tem com quem dividi-los.

Briggs mantém um diário, contando seus dias de guerra e saída em busca do objeto misterioso. Seus escritos são encontrados pelo capitão Lee Miller na estação espacial. Imaginar a rotina do soldado é tudo o que Miller pode fazer, enquanto desenha os personagens do diário. Briggs escreve até o descobrimento do objeto no deserto, mas não o descreve, nada mais é dito.

“Eu decidi que não estou à procura de uma descoberta”, falam as últimas páginas, “estou simplesmente à espera que tenhamos uma história que valha a pena lembrar. Uma impressão de um plano meticuloso, um sentimento de propósito sincero e uma sensação de bem-estar”. O próprio filme dá estas pequenas dicas de que não busca oferecer respostas, mas uma experiência única.

O diário sem fim leva Miller ao limite. Ele deixa de se preocupar com aparência, saúde ou mesmo sanidade. À beira do suicídio, mas prendendo-se no pouco de esperança que resta, Miller recebe uma mensagem no comunicador e percebe luzes do lado de fora da estação espacial. Ele se prepara para descobrir o que é o monumento gigantesco e cheio de luzes que pede para atracar na base. Dentro, Miller encontra espaços humanos, como salas, quartos e corredores, todos vazios. São como réplicas de locais visitados por um dos entrevistados, um escritor idoso, que aparece em algumas cenas rápidas.

Miller chega em um espaço que parece um grande arquivo, no qual encontra um livro: “História de amor: Coleção de reflexões, histórias e memórias da condição humana – Compilado por NOAH Organização Nacional da História Arquivada – contada por você”. O nome da organização faz uma referência à Noé, o personagem bíblico que colocou os animais aos pares em uma arca, para salvá-los da devastação. Neste ponto, fica mais claro o objetivo do astronauta ali.

Fotos revelam que Miller está na nave encontrada por Briggs quase 200 anos antes. Aqui se revela a grande conexão entre os dois. Ambos os capitães são mandados em missões de reconhecimento. O caráter explorador, marcado inclusive pelos cargos que assumem, é essencial para que os personagens tenham sido escolhidos para contar esta história. A resistência, determinação e até mesmo curiosidade que mantém ambos vivos mesmo nos momentos de adversidade garantem o resultado esperado pela presença que os colocou neste caminho.

O astronauta encontra seu nome no livro, em um índex imenso, com um código que digita no computador da nave. As entrevistas começam a ser transmitidas enquanto uma voz toma conta do ambiente.

“Conexão é talvez a coisa mais preciosa que qualquer ser humano pode ter”. A voz explica que a humanidade se foi e Miller é o último de sua espécie, como um escolhido para lembrar as vidas do planeta (por isso, a referência à Noé). Aqui, a ideia que vem sendo construída sutilmente ao longo de “Love” se concretiza, mostrando a importância do contato humano e como uma vida é capaz de ser afetada por outras a seu redor.

O filme termina com uma mensagem em áudio cheia de significado, difícil de distinguir se é uma recepção a Miller ou mesmo um agradecimento ao espectador. “Esta noite foi uma experiência maravilhosa de contato humano. Uma relação simbiótica entre o homem, a máquina e você (…) Lembre-se sempre que este foi um momento em que não esteve só. E que sentiu algo que milhões de outras pessoas sentiram. E que foi… amor”.

Eubank admite ter se inspirado em um discurso de Carl Sagan, “Pale Blue Dot” (Pálido Ponto Azul), sobre uma foto do planeta Terra visto de muito distante no espaço. “Todo santo e pecador da história de nossa espécie viveu ali”, pontua o cientista. O texto é uma maneira de observar a humanidade com um olhar mais pacificador, de união. Tudo o que fazemos é muito pequeno perto da vastidão do espaço. Isto deveria nos inspirar maior compaixão, ser mais amáveis e proteger nosso único lar, Sagan completa.

O filme tem importantes ecos de “2001: Uma Odisséia no Espaço”, principalmente visual. Escolhas de movimentos de câmera e enquadramentos são mais explícitos, enquanto detalhes como a narrativa e a relação homem e máquina (ou no caso, a nave misteriosa) são mais sutis. “Love” acaba se tornando uma homenagem a grandes filmes de ficção científica que colocam o homem no espaço tentando encontrar seu lugar na humanidade. Com a influência do texto de Carl Sagan, essa mensagem acabe se tornando mais positiva.

Miller, como o último humano, completa a “profecia” do comandante de Briggs no início do filme: “um homem só com vida pode ser uma homenagem para o restante”. O astronauta, longe de casa, se torna único representante das conexões que fez, por menores que fossem, destinado e relembrar as relações humanas. A elas, tudo o que pode fazer é dedicar seu amor.

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