A maior função da literatura, para além das discussões acadêmicas sobre estilo ou sobre a estrutura do narrador, reside no fato de que ela é uma ferramenta que configura e fortalece a humanidade dos sujeitos que “perdem” um ou dois minutos lendo um texto literário.

Mas na sociedade em que vivemos, na qual o pragmatismo é moeda sonante, nem sempre as pessoas compreendem o significado que esta função humanizadora possui. Na verdade, pelo fato de muitos de nós entendermos a ideia de função como algo valorativo (e, portanto mensurável), é até difícil circunscrever o sentido de humanizar.

Como atribuir valor humanizador aos versos de Quintana quando ele diz: “Todos estes que aí estão/ Atravancando o meu caminho,/ Eles passarão./ Eu passarinho!”? Fica mais fácil fazer o que normalmente fazemos e buscar compreender qual a função que o autor utilizou ao redigir estes versinhos tão simples (mas profundos): referencial, emotiva, metalinguística, etc.

E se por acaso, no dia em que escreveu este poema, Quintana só o tivesse escrito para se sentir melhor, ou para que alguém naquele instante (ou em um tempo futuro) lesse estes versos singelos e sentisse a alegria retornando ao seu coração?

No contexto do universo contemporâneo, onde a alta tecnologia e a ciência impõem-se às pessoas quase como uma religião, a experiência humana que a literatura em si pode nos trazer fica relegada a segundo plano e, diante deste contexto, ficam também relegadas a segundo plano questões como empatia, respeito pela diversidade e pela subjetividade.

Às vezes, esquecemos que um dos objetivos da literatura é representar a nossa existência enquanto seres humanos, trazendo a tona formas de verdade que incidem sobre a narrativa nos fazendo ter acesso ao sentido do mundo e dentro deste contexto, ao nosso sentido no mundo.

Assim, o texto literário para além das formalidades estilísticas, (não que a compreensão delas não seja importante, mas somente a compreensão delas não permite descortinar o sentimento que a obra em si traz de forma intrínseca a sua construção), descortina diante dos nossos olhos uma nova percepção de realidade.

E não é possível medir a intensidade desta sensação, muito menos mensurá-la pragmaticamente.

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