Quando lemos um texto como “O Auto da Compadecida” de autoria de Ariano Suassuna, ficamos surpreendidos pelas marcas de oralidade que o texto traz em si. A obra de Suassuna é somente um exemplo deste processo onde a oralidade fica marcada de forma premente pelo registro escrito.

Diante deste contexto, poderíamos nos perguntar: a literatura se manifesta através de uma língua ou é a língua que se manifesta a partir da literatura? E a manifestação de ambas pode encerrar em si algo de teatral, ou performático? Eis algumas das indagações promovidas por Paul Zumthor, pensador suiço que buscou entender as relações entre a língua e a literatura em seu trabalho.

Suas investigações tinham como objeto a oralidade. Zumthor caminhou pela linguística, pela sociologia e pela história das tradições orais para buscar a compreensão e a amplitude de seu foco de pesquisa. Em suas análises, percebeu que a voz (e portanto, as questões performáticas) é um fenômeno central na cultura humana.

 

Assim, colocar-se no interior desse fenômeno e percebê-lo em sua amplitude, significa contemplar as sociedades de um ponto de vista privilegiado o qual integra de forma quase que total, aquilo que podemos chamar de cultura. Na opinião de Zumthor, a voz constitui-se em uma fonte de energia  responsável por carregar as culturas de algo próximo daquilo que os gregos entendiam por anima, ou seja, a alma em seu sentido indelével, o qual confere a essência do ser.

Na opinião do pensador suiço, a compreensão desse fenômeno exige uma visão interdisciplinar quebrando os pontos de vista grafocêntricos nos quais os estudos literários se pautam. Daí a importância que ele dá em seu trabalho as questões que envolvem a oralidade e principalmente o efeito que essa oralidade causa no sentido do texto literário, ao qual ele chamará, grosso modo, de performance.

Justamente por isso, a literatura em essência pode ser entendida como um teatro e vista por essa premissa, aproxima-se de forma mais visceral da cultura que a produz, alimentando e (re) articulando a formação identitária de um povo.

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