Existem autores que fazem parte daquilo que, academicamente, chamamos de cânone literário e sua presença neste patamar é inquestionável. É caso de nomes como Machado de Assis, Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto, Guimarães Rosa, entre tantos outros… E só estou citando autores nacionais aqui. Se for buscar a história da literatura ocidental, a tendência é que essa lista se torne infindável.

Mas, que qualidade torna um autor ou autora e sua obra elementos dignos de canonização? Há quem diga que o valor estético é algo a ser considerado neste contexto; da mesma forma como a originalidade do texto literário em questão ou mesmo a estranheza da sua construção; caso de “Ulysses” de James Joyce, no qual o autor cria uma epopeia que conversa com os clássicos da literatura grega tendo por cenário um dia na vida de um sujeito qualquer.

Penso que atualmente a universidade aparece como um elemento primordial para consolidação ou (re) criação do cânone literário, haja vista o exemplo da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) que incluiu como leitura obrigatória para o vestibular o álbum “Sobrevivendo ao Inferno”, dos Racionais MC’s. Ao lado do grupo de rap, na categoria poesia estão sonetos de Luis de Camões e o livro de Ana Cristina Cesar, “A Teus Pés”.

Desde a obra camoniana até a música dos Racionais, existe um fio condutor que perpassa a escolha feita pela universidade paulista qual seja ela, o fato destes textos expressarem seus sentidos de forma única e relevante, importante para o alcance e formação dos estudantes de ensino médio. Ou dito de outra forma: do soneto metricamente perfeito escrito por Camões à rima do rap nacional existe um elemento que toca a subjetividade dos sujeitos que se dedicam a leitura desses textos, tornando-os elementos representativos dessas pessoas.

A grande questão a ser ressaltada aqui diz respeito ao fato de que, quem lê necessariamente fará escolhas e construirá seu próprio cânone, pois não temos tempo suficiente para ler tudo. Há que se observar também que ler os melhores escritores (Tolstoi, Dante, Wilde, Sartre ou os já citados, Machado de Assis, Lispector, Guimarães etc.), não necessariamente nos torna cidadãos melhores.

Mas é gratificante ver que nos espaços institucionalizados a margem ocupa seu lugar. Estas inserções mostram o quanto a sociedade mudou. E mostra que tais transformações emanam das mudanças que foram pautadas em elementos como a globalização, e que propõem alterações na forma como a cultura (ou culturas) é compreendida, o influencia diretamente na construção das identidades dos sujeitos. E é importante ver que a literatura assume, nesta condição um lócus que busca uma educação democrática e que prima por melhorias sociais.

 

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