Com o aumento do sucesso de Black Mirror após a parceria entre o britânico Channel 4 e a Netflix, era de se esperar que uma próxima série resultado dessa parceria fosse um sucesso absoluto. Por isso, ao se deparar com Kiss Me First no catálogo do serviço de streaming, você pode se interessar por ela só por ser fruto dessa colaboração. No entanto, a série, apesar de contar com alguns pontos positivos, não faz jus à expectativa que gera.

A série de ficção científica dramática (esse é um gênero que existe?), baseada em livro homônimo de Lottie Moggach, conta a história de Leila (Tallulah Rose), que acabou de perder a mãe e passa tempo demais em um jogo virtual de realidade aumentada, o Azana World. Em Azana, os jogadores são livres para fazerem o que desejarem, o que obviamente significa que muitos deles estão em guerra. Leila, então, conhece um grupo pacifista de jogadores autointitulado Red Pill (pílula vermelha), uma referência ao filme Matrix (1999), ao qual ela se junta após fazer amizade com Tess (Simona Brown), ou Mania, como é chamada no jogo. Além disso, passa a usar, assim como o resto do grupo, um dispositivo ilegal, que a permite sentir tudo o que sua personagem sente em Azana. Leila, entretanto, não demora a descobrir que o grupo é quase um culto ao líder dele, Adrian (Matthew Beard), e que esse jogador planeja induzir todos os integrantes da Red Pill a cometer suicídio. É melhor parar por aqui para não dar spoilers.

Você provavelmente se lembrou de alguma outra narrativa com premissa muito parecida com a de Kiss Me First, isso se você costuma assistir/ler narrativas do gênero. É uma premissa batida, mas pode funcionar bem caso seja bem trabalhada. Para mim, não foi esse o caso. A história como um todo se desenvolve de forma lenta, o que não seria um problema se muitas informações importantes não fossem introduzidas rápida e seguidamente, contrastando com o tom inicialmente estabelecido pela série. Também me incomodou o desenvolvimento das personagens. Mais especificamente, me refiro à falta de desenvolvimento psicológico delas. Todos os integrantes de Red Pill, por exemplo, sofrem com algum transtorno piscicológico, o que é o principal motivo de acreditarem cegamente em Adrian quando ele promete um lugar feliz, já que ele aparentemente os entende, e eles não apresentam uma melhora emocional ao decorrer dos episódios. É uma narrativa muito pessimista, e não é isso que o telespectador espera ao começar a assisti-la.

Na verdade, a série não é praticamente nada que o telespectador espera quando decide assisti-la, e não digo isso de um jeito bom. Ela não entrega o que promete. Bons exemplos disso são algumas imagens promocionais e o próprio nome da série, bem como diversas cenas, que prometem uma narrativa de romance. Existe um subtexto homoerótico entre Tess e Leila usado para atrair o público LGBT+, mas o relacionamento das duas nunca é desenvolvido — ah, o famigerado e nada surpreendente queerbait… É covarde e irresponsável usar esse padrão de narrativa tão criticado pelos LGBTs, especialmente em um momento em que a discussão sobre o que de fato é representatividade está com grande visibilidade. É escrita preguiçosa de roteiro para atrair um público diverso sem arriscar perder o público conservador, fingindo que estão incluindo uma minoria quando não realmente colaboram em nada para boa representação LGBT na mídia. Eu falaria mais sobre o desrespeito aos LGBTs dessa série, mas prometi uma crítica sem spoilers.

De longe, a melhor característica de Kiss Me First é o visual. Os gráficos do jogo, que é mostrado intercaladamente com a realidade, são lindos e faz qualquer gamer ter vontade de experimentar a sensação de jogar Azana World. Ademais, as paletas de cores são, muitas vezes, meio desbotadas, contribuindo para a melancolia da série. Apesar de eu ter ficado curiosa para o desfecho, o que mais me incentivou a assistir até o fim foi essa fotografia. É o mal do ser humano, afinal, se deixar levar por coisas bonitas. E, não surpreendentemente, não valeu tanto a pena com um desfecho decepcionante e anticlimático que não entrega respostas as quais não deveriam ficar escondidas por mais tempo.

No geral, Kiss Me First tem uma premissa boa, ainda que pouco inovadora, que não foi bem trabalhada. São apenas seis episódios, então vale dar uma conferida se você se interessou pelo enredo. Apesar dos problemas, estou cogitando ler o livro, que até então eu não conhecia. Talvez ele resolva alguns pontos que não me agradaram.

"KISS ME FIRST", A PROMESSA NÃO CUMPRIDA
3.7Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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