Em O ano da morte de Ricardo Reis (Companhia das Letras, 1984), de José Saramago, o poeta Reis (heterônimo de Fernando Pessoa) é caracterizado como um “expectador do espetáculo do mundo”, um leitor de livros e notícias de jornal, impassível à realidade a sua volta. Ele é um indivíduo que renuncia vivenciar fortes emoções e é muito disciplinado com suas decisões românticas – se quer consegue escolher entre o amor burguês de Marcenda e a paixão revolucionária de Lídia.

Todas essas evidências são apresentadas sob o foco crítico do narrador, que ao longo das 415 páginas do livro, busca destituir o clássico e estoico poeta do cargo santificado e prestigiado em que ocupava quando Pessoa ainda estava vivo. Na referida obra, criador e criatura estão (quase) no mesmo patamar ficcional.

Os dois seres literários dão vida ao romance, o detalhe é que Fernando Pessoa é um fantasma e com quem Ricardo Reis tem conversas sobre a vida, a morte, a sociedade e seus relacionamentos. A cada encontro compartilham a dúvida crucial sobre as suas identidades, parafraseando a problemática apresentada pelo próprio poeta em muitos de seus escritos:

 

Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). […] Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. 

Páginas íntimas e de auto-interpretação (Ática, 1996, p.93).

 

 

No romance, a imprecisão de Pessoa descrita na frase “sou variamente outro do que um eu que não sei se existe”, pode ser retomada ao se comparar às dúvidas de Reis, que tenta a todo momento saber quem é realmente. Entre papéis, folhas escritas com versos antigos e trechos de suas odes o narrador descreve uma cena em que protagonista reflete sobre sua identidade:

 

Vivem em nós inúmeros, se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente, sou somente o lugar onde se pensa e sente […]. Se somente isto sou, pensa Ricardo Reis depois de ler, quem estará pensado agora o que eu penso, ou penso que estou pensando no lugar que sou de pensar, quem estará sentido o que sinto, ou sinto que estou sentido no lugar que sou de sentir, quem se serve de mim para sentir e pensar, e, de quantos inúmeros que em mim vivem, eu sou qual, quem, Quain, que pensamentos e sensações serão os que não partilho por só me pertencerem, quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser (SARAMAGO, 1988, p.24).

 

No trecho, presente no primeiro capítulo da obra, o narrador apresenta os pensamentos conflituosos e demonstra o labirinto de dúvidas em que Reis está inserido. A começar com a “coisificação” de sua identidade, representada pelo pronome demonstrativo na frase “se somente isto sou”, seguida pelo questionamento “quem sou eu que outros não sejam ou tenham sido ou venham a ser”.

Essas dúvidas demonstram a confusão da consciência de Reis, como se ele estivesse preso em uma realidade subjetiva. Essa ideia de prisão é reforçada pela utilização da expressão: “eu sou qual, quem, Quain”. É com esse jogo de palavras, que Reis discretamente faz referência tanto a Pessoa – na pergunta “qual” deles (heterônimos) é –, quanto a Jorge Luís Borges, escritor argentino e criador do personagem Herbert Quain, suposto autor do livro The god of the labyrinth (O Deus do labirinto, 1933).

Tal obra foi emprestada por Reis na biblioteca do navio que o trouxe até Lisboa e o acompanhará durante toda a narrativa. No romance, Reis não lê além das primeiras páginas. Entretanto, sabia do enigma envolvendo a obra e a todo momento a relacionava com sua problemática pessoal. Em seu texto intitulado “Espelhos e bifurcações”, Orlando Alfred Arnold Grossegesse (2014) reitera que “a aparição deste livro imaginado nas mãos de Ricardo Reis exibe, por um lado, a filiação a Borges; por outro, a sua leitura – inacabada – é feita por um ser imaginado”.

Este é apenas um exemplo de como a metaficcionalidade está presente em O ano da morte de Ricardo Reis, já que a obra é inteiramente construída a partir de textos literários e históricos. A rememoração e apropriação de personagens e episódios históricos, mesclada às narrativas literárias ficcionais, constituem o ponto nevrálgico da tradição do romance metaficcional, que revela propositadamente os mecanismos da produção de uma obra literária.

 

Jogos entre livros

Para entender o processo de interação que se dá entre os vários textos presentes no livro de Saramago, é necessário buscar os estudos de Mikhail Bakhtin sobre o dialogismo, em que um texto não pode ser visto isoladamente, pois carrega vários sentidos ou elementos que mantêm uma comunicação, tanto na escrita quanto na leitura e se correlaciona a outros pontos de vista similares.

Com base nessas discussões, Julia Kristeva apresenta em seu livro Introdução à semanálise (1974) o termo intertextualidade, que descreve a interação entre textos a partir do cruzamento de superfícies textuais. De tal modo que “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é absorção e transformação de um outro texto” (p.68). Considerando a ideia de “mosaico de citações”, entendendo-se com isso que qualquer texto “empresta” de outro algum elemento na sua construção, é possível relacioná-la ao conceito de palimpsesto, abordado por Gerard Genette em Palimpsestos: a literatura de segunda mão (1982).

Deste modo, todas as obras são “derivadas de uma obra anterior, por transformação ou por imitação. […] Um texto pode sempre ler um outro, e assim por diante, até o fim dos textos”. Cada fragmento presente no texto é importante para o desenvolvimento do constructo narrativo, pois mesmo que sua primeira inscrição não esteja evidente, há em sua essência a relação com outros escritos.

A relação metaficcional presente em O ano da morte de Ricardo Reis também se dá no âmbito histórico, já que Saramago discute o processo de criação literária, a partir da utilização de referências intertextuais e estratégias narrativas para entrelaçar a literatura e os acontecimentos históricos de 1936. Este foi um ano crucial para a política portuguesa e europeia, com a instalação da ditadura salazarista, prenúncios da Guerra Civil espanhola e ascensão de Hitler e Mussolini.

Contudo, não se trata de uma mimese simplista da história. Linda Hutcheon destaca em seu livro Poética do Pós-Modernismo: história, teoria, ficção (1991) que em tais metaficções historiográficas a “ficção é apresentada como mais um entre os discursos pelos quais elaboramos nossas versões da realidade, e tanto a elaboração como sua necessidade são o que se enfatiza no romance pós-modernista” (p.64).

Para a autora canadense, essas são algumas das problematizações que a atual literatura pós-moderna faz em relação à história. É a partir da especulação do fato histórico e de suas implicações ideológicas que os romances contemporâneos têm a oportunidade de estabelecer um diálogo com a história a partir da escrita. Uma vez que a auto-referencialidade e seu caráter reflexivo na abordagem da temática histórica constituem algumas das características desses títulos ficcionais.

Vista do Porto de Lisboa, Cais de Alcântara (1936) – Autor Desconhecido.

 

Ao analisar vários exemplos de metaficção historiográfica, Helena Kaufman (1991) destaca que o livro de Saramago traria uma nova maneira de escrever a ficção histórica, pois este reformula o padrão tradicional do “romance histórico”. Nessa perspectiva, a obra problematiza o conhecimento da história, bem como o processo de narrar e escrever a ficção. O jogo entre o fictício e o histórico seria intensificado, na opinião da autora, a partir da exploração da intertextualidade e da multiplicidade de discursos, já que Saramago recria uma Lisboa do ano de 1936, “quase fornecendo um mapa detalhado da cidade. […] Através dessa reconstrução arqueologicamente minuciosa, o autor consegue criar uma realidade palpável da época, de complexas mudanças políticas em toda a Europa” (p.126).

Ademais, a recriação minuciosamente planejada por Saramago é complementada pelas inúmeras citações dos jornais da época que traziam informações variadas, desde notícias sobre acontecimentos cotidianos, a fragmentos de discursos políticos até anúncios comerciais, complementando tanto o processo criativo quanto o narrativo.

Contudo, apesar do constructo realista, esse tipo de ficção não busca alcançar uma verdade histórica. Ao examinar a influência da voz narrativa na obra, Kaufman destaca que vai além da esfera abstrata, de caráter reflexivo, chegando a alcançar os mecanismos de funcionamento dos personagens: “[…] O narrador de José Saramago não se limita, porém, a uma onisciência típica do romance realista; vai além, expondo o próprio estatuto fictício e, às vezes, inverossímil do personagem” (p.127).

Assim, o narrador controlaria não só a narrativa como também o processo de criação e desenvolvimento da figura principal da trama, pois devido a sua onisciência histórico-literário das motivações, pensamentos, atitudes e características do Ricardo Reis-poeta atribuiria as mesmas particularidades ao Ricardo Reis-personagem. Deste modo, ao recorrer a comentários valorativos e se declarar explicitamente contemporâneo do leitor, o narrador estaria inserindo sua perspectiva entre os pormenores históricos da época que descreve, bem como adquirindo um “tipo de transcendência cultural e temporal, permitindo uma visão da realidade que abrange o presente, o futuro e o passado” (p.126-127).

 



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AS INSPIRAÇÕES DE SARAMAGO EM “O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS”

 


*Caricatura de Fernando Pessoa criada por Rui Pimentel.

O JOGO METAFICCIONAL EM ‘O ANO DA MORTE DE RICARDO REIS’
4.6Pontuação geral
CAPA
REVISÃO
DIAGRAMAÇÃO
ORIGINALIDADE
PERSONAGENS
DESENVOLVIMENTO

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