Lançado no Brasil no dia 29 de março, ao mesmo tempo em que faz um enigmático desvio para os brilhantes anos 70 e 80, certas cenas de Jogador Nº 1 são como um solo de guitarra do cinema moderno: um adolescente em busca de um prêmio de um jogo de realidade virtual em um mundo arrasado por uma crise energética.

O filme é ambientado em 2045 e, embora esteja surgindo uma onda de dramas sobre as utopias pré-apocalípticas, o Jogador Nº 1 não é um deles. O mundo do futuro está bastante maltratado depois de uma série de catástrofes sísmicas imaginadas, incluindo os “motins de banda larga”. As cidades são enormes favelas e a realidade virtual é o ópio das grandes massas.

Tye Sheridan é Wade Watts, uma adolescente solitária que mora em Columbus, Ohio, que agora é um horrível amontoado de trailers empilhados uns sobre os outros. Seu único interesse é colocar óculos, luvas, fones e uma roupa especial para ser transportado até o universo alternativo do Oasis, como um avatar mítico chamado Parzifal.

Assim temos um escape ilimitado da fantasia na mente das pessoas, onde elas podem jogar e ter experiências incríveis. O filme sugere subliminarmente várias experiências surreais para os interessados. Eles podem ganhar dinheiro digital em vários concursos, mas possivelmente também podem acabar com tudo.

O criador do jogo é o falecido James Halliday, interpretado por Mark Rylance, um gênio que é quase um cruzamento entre Willy Wonka, Steve Jobs e Tim Berners-Lee. Antes de morrer, Halliday escondeu em seu mundo três pistas que permitiriam ao descobridor o controle completo desse fabuloso reino espectral. Então Wade se torna uma espécie de caçador de tesouro, junto com alguns amigos, incluindo a fantástica Samantha – avatar: Art3mis -, interpretada por Olivia Cooke, e seu melhor amigo Aech (Lena Waithe). Mas a arrebatadora corporação de Sorrento, interpretada por Ben Mendelsohn, quer pegar o tal tesouro e acabar com todos esses indivíduos ditos “criativos” para quem o Oasis é apenas um maravilhoso playground.

O Oasis tem uma configuração, de certa forma, estranha. Somos convidados a acreditar na visão sonhadora quase cristã de Halliday e seu tesouro, mas ele criou o que equivale a uma horrível pílula azul Matrix da dependência global. A tia de Wade, Alice (Susan Lynch) teve sua vida efetivamente arruinada por um namorado violento, Rick (Ralph Ineson), que está viciado em seu potencial de jogo. Não está claro como ou se Wade vai modificar isso ao encontrar o tesouro. Depois, há aquelas referências dos anos 80, incluindo uma brincadeira surpresa através do mundo de The Shining de Stanley Kubrick.

Já os easter eggs – é quase angustiante ficar caçando as referências ao longo da exibição – têm foco nos anos 1980, época pela qual Halliday tem um especial apreço, mas servem para outras gerações também – O Iluminado, por exemplo, entra com uma forte “ponta” na produção.

É 2045: como Halliday concebeu essa obsessão nesse período? Em um estágio, vemos um simulacro do quarto de sua infância, que parece ter crescido nos anos 70 e 80. Ele cresceu em algum parque temático retrô? Ou os futuros conhecedores simplesmente acreditam que a cultura pop simplesmente morreu com a queda do Muro de Berlim?

Bem, o filme meio que responde a essas preocupações com o primeiro indício de que Wade persegue. Ele vê o interesse caprichoso e subversivo do grande homem em “retroceder” e percebe que pode ser a chave para a extraordinária corrida em uma espécie de Nova Iorque fabricada. Essa é realmente uma seqüência sensacional, indutora de suspiros, com uma sonoridade bem barulhenta, diga-se de passagem. A solução para essas pistas se dá no primeiro momento do filme, mas é aí que está quase toda a magia da coisa. À partir de então, a ação fica coagulada e confusa e, de alguma forma, os eventos que se sucedem tentam separar Samantha de Wade e seus amigos para criar uma crise narrativa.

É um filme em que a reverência de Spielberg pela maravilha e idealismo da juventude, teve que se comprometer com a resistência sobrevivente do novo mundo. Mas em contrapartida, evoca visuais extraordinários, com imagens que aparecem e desaparecem como mágica fantástica.

Qual o sentido da vida em se tratando de Jogador Nº 1? É válido ser bem sucedido no mundo virtual quando o mundo real não está lá essas coisas? É possível substituir um pelo outro? A conclusão a que chegamos ao assistir o filme é praticamente infantil, inocente. Em tempos de apego excessivo aos celulares, o desfecho funciona como um lembrete para as pessoas, sobretudo os mais jovens, de que é importante olhar mais umas para as outras.

JOGADOR Nº 1 – UMA ESPETACULAR TRANSIÇÃO ENTRE O JOGO E UMA PAISAGEM FUTURISTA SEM LIMITES
4.3Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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