Escrever é sempre esconder algo de modo que mais tarde seja descoberto.

Ítalo Calvino

Olá pessoal, conforme prometido no artigo passado, hoje vamos dar continuidade a proposta do autor cubano, Ítalo Calvino, em relação ao que ele considera um texto literário clássico. Na semana passada, apresentei para vocês os 07 primeiros itens sobre a definição de um clássico tendo a visão de Calvino por premissa. No artigo de hoje finalizo a apresentação, trazendo os outros 07 pontos que o autor considera importantes sobre a temática.

Vamos lá?

  1. UM CLÁSSICO É UMA OBRA QUE PROVOCA UMA NUVEM DE DISCURSOS CRÍTICOS SOBRE SI, MAS, AO MESMO TEMPO A REPELE PARA LONGE

Um texto clássico justamente por ser imortal e atemporal evoca uma série de discursos sobre si mesmo. Através destes discursos podemos descobrir algo nele que já sabemos ou que julgamos saber. Na verdade, muita gente pode dizer: “o livro do fulano não traz novidade nenhuma, porque o autor tal já escreveu sobre isso!”… Ok: mas acontece que nenhum de nós sabe efetivamente se o livro do fulano trouxe ou não alguma novidade de fato. Quando o assunto é um clássico, desconhecemos se ele disse algo sobre determinado assunto primeiro. Esse julgamento só cabe a quem lê/leu o texto. Qualquer coisa para além disso, é brisa fria em dia quente de verão!

  1. CLÁSSICOS SÃO LIVROS QUE QUANTO MAIS PENSAMOS CONHECER POR OUVIR DIZER, QUANDO LIDOS DE FATO, SE REVELAM NOVOS, INSPIRADORES E INÉDITOS

Por mais que a gente escute opiniões sobre um determinado texto literário, só quando o lemos é que conseguimos dizer se alguma delas é pertinente ou não. Porque, quando fazemos a nossa própria leitura, estabelecemos com o texto uma relação pessoal, e é a partir dela que poderemos nos apropriar de forma mais significativa do que o texto oferece.

Algumas leituras deveriam ser feitas única e exclusivamente por amor. E essas seriam as escolhas que contam, a exceção feita por aquelas leituras que somos obrigados a levar a cabo no ambiente escolar, ou de educação dita formal. O que deve ficar claro é que a leitura desinteressada, feita pelo prazer de ler pode nos fazer deparar com livros que vamos considerar nossos de verdade.

  1. UM CLÁSSICO É O LIVRO QUE SE CONFIGURA COMO UM EQUIVALENTE DO UNIVERSO

Aqui estou falando daquele livro que é uma espécie de talismã. Um livro que você seria capaz de colocar na cabeceira da sua cama e ler (para sempre!) um trecho por dia sem querer que ele acabasse. E quando ele acabar, você inicia a leitura de novo!

  1. O CLÁSSICO QUE VOCÊ IRÁ CHAMAR DE “SEU” É AQUELE AO QUAL VOCÊ NÃO É INDIFERENTE

Questão importantíssima! Independente da antiguidade do livro em questão, ou do estilo ou da autoridade (por exemplo, “Os Lusíadas”, para mim, se constitui em um livro clássico; mas o seu pode muito bem ser a “Guerra dos Tronos”!), o clássico define você em relação a ele, ou ao que a leitura dele promove em você.  Só isso já assegura a continuidade dele em seu próprio espaço cultural.

  1. CLÁSSICO É UM LIVRO QUE VEM ANTES DE OUTROS CLÁSSICOS

O que isso quer dizer? É simples! Quem lê outros livros antes de ler um clássico, vai reconhecer o seu lugar na genealogia, mesmo que o tenha lido depois. E vai pensar: “Como eu não li isso antes?!”

  1. UM CLÁSSICO TENDE A RELEGAR AS ATUALIDADES À POSIÇÃO DE “BARULHO DE FUNDO”

Agora alguém poderia me perguntar como, com a enxurrada de papel que temos publicada diariamente, saberemos escolher o que ler, o que estipular como sendo um clássico e que tempo temos para nos dedicar a leitura daqueles livros como “Eneida”. Porque não pensem que eu não sei o quanto é difícil ler um clássico!

O ideal seria que nós pudéssemos ir mesclando essas leituras à leituras mais atuais, porque isso é fundamental: o clássico se sobrepõe ao ruído de qualquer texto, mas não prescinde de ouvir esse ruído volta e meia. É isso que faz com que nosso gosto fique mais apurado e a gente deixe de gostar de determinadas coisas, pois foi ouvindo o murmúrio de outras que passamos a entender do assunto com mais profundidade.

  1. O CLÁSSICO PERSISTE ENQUANTO RUMOR MESMO ONDE PREDOMINA A ATUALIDADE

Mesmo que a leitura dos clássicos pareça estar em contradição com o nosso assoberbado ritmo de vida, que desconhece o ócio humanista o qual permitia saborear A Divina Comédia; basta lembrar que o clássico serve para que a gente entenda quem nós somos e de onde viemos. Assim também é possível que compreendamos como chegamos até aqui.

E para finalizar, basta lembrar, como bem dizia Calvino, que é melhor ler um clássico do que não ler. Pois ao final das contas, quem perde é quem deixa de conhecê-lo…

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