“O autor de um livro é uma personagem fictícia

que o autor real inventa para que seja autor das suas ficções”

Ítalo Calvino

O texto “Por que Ler os Clássicos?” de autoria de Ítalo Calvino fala sobre os livros que este autor nascido em Cuba, considera importantes.  Nesta obra, Calvino discorre sobre os textos literários que ele entende serem clássicos e sem os quais, sua biblioteca estaria incompleta. Mas veja bem, ele se refere a SUA biblioteca e não há biblioteca de outras pessoas. Então como definir o que é um clássico da literatura? Como definir qual texto merece ou não merece ser lido e fazer ou não fazer parte da nossa biblioteca? Para responder esta pergunta, basta ler a primeira parte do livro “Por que Ler os Clássicos?”.

Vou trazer a proposta do autor resumidamente, para vocês. Espero que ao final da leitura desta série de artigos, dividida em duas partes, vocês possam ter condições de montar a sua própria biblioteca de clássicos! Então, vamos conhecer a proposta deste cubano? Neste artigo, vou apresentar para vocês os primeiros 07 itens sobre a definição de um clássico a partir da visão de Ítalo Calvino.

  1. CLÁSSICOS SÃO LIVROS SOBRE OS QUAIS NUNCA SE DIZ “ESTOU LENDO”, MAS SEMPRE “ESTOU RELENDO”

Em geral, as pessoas tem certa vergonha em admitir que nunca leram um clássico, quando na verdade muita gente nunca leu um. Mas tranquilizem-se. Por maior que seja o conjunto das leituras “de formação” de um sujeito, sempre vai restar um número gigantesco de textos que ele não leu. E não há nenhum problema em encontrar-se com a leitura de um clássico pela primeira vez, na vida adulta. Na verdade, isso pode se revelar um prazer extraordinário e a maturidade poderá fazer com que a leitura seja muito melhor aproveitada.

  1. CLÁSSICOS SÃO TEXTOS QUE CONSTITUEM UMA RIQUEZA ENORME PARA QUEM JÁ OS LEU E UMA RIQUEZA NÃO MENOR PARA QUEM OS LÊ PELA PRIMEIRA VEZ

Quando lemos um texto pela primeira vez, principalmente quando não temos maturidade para entendê-lo, a leitura pode nos parecer sem graça. A culpa é do texto literário? Não necessariamente! A culpa pode ser da nossa impaciência, da nossa imaturidade, da nossa falta de atenção… O que não podemos perder de vista é o fato de que toda leitura pode ser formativa, ou seja, pode nos ajudar a melhorar experiências de leitura que faremos no futuro. Isso quer dizer que, a partir das leituras que fazemos, vamos criando parâmetros em relação a modelos, forma, estilo, etc. E é a partir daí que dizemos se um texto é bom ou não, pelos parâmetros que estabelecemos.

 

  1. CLÁSSICOS SÃO LIVROS QUE EXERCEM INFLUÊNCIA PARTICULAR EM NOSSA VIDA, COLOCANDO-SE COMO INESQUECÍVEIS E SE ESCONDENDO NAS DOBRAS DA NOSSA MEMÓRIA

Todo mundo aqui já deve ter lido um livro inesquecível! Aquele livro que você leu, e que guarda com carinho na cabeceira da sua cama. Aquele livro que você não se importa de reler, mesmo sabendo qual o final da história porque sabe que, mesmo que a história não mude você mudou. Então uma nova leitura vai lhe trazer algo de novo e vai acrescentar melhoras na sua condição enquanto ser humano. Nesse caso, tanta faz você dizer que está “lendo” ou “relendo”.

  1. TODA VEZ QUE VOCÊ RELÊ UM CLÁSSICO É COMO SE VOCÊ ESTIVESSE LENDO AQUELE LIVRO PELA PRIMEIRA VEZ

Caso você não tenha entendido o que significa o item 4, volte uma casa e leia novamente o item número 3!

  1. TODA PRIMEIRA LEITURA DE UM CLÁSSICO É UMA RELEITURA

Que confusão! Como assim? Se for pela primeira vez que eu vou ler, como pode ser uma releitura? Calma, “alma inquieta”, como dizia Machado de Assis, vou explicar! O clássico nos traz a sensação do déjà vu, ou seja, é como se você já tivesse visto, sentido, ouvido, cheirado aquela sensação que a leitura daquele texto lhe traz. Ele remete a memórias que você já tem e faz com que elas venham à tona. É por isso que a leitura de determinados textos nos deixam com a impressão de que o autor que os escreveu nos conhecia. Ele poderia não nos conhecer, mas conhecia a natureza humana da qual fazemos parte e nos apresentou a nós mesmos através da sua escrita.

 

  1. UM CLÁSSICO NUNCA TERMINA DE DIZER AQUILO QUE TINHA A DIZER

É por isso que nunca nos importamos de reler um texto que consideramos clássico! Sempre podemos aprender mais alguma coisa com ele!

  1. UM CLÁSSICO TRAZ ATÉ NÓS AS MARCAS DAS LEITURAS QUE NOS PRECEDERAM E DEIXA ATRÁS DE SI UMA SÉRIE DE RASTROS NAS MAIS DIVERSAS CULTURAS QUE ATRAVESSAM PADRÕES DE ESPAÇO, TEMPO, LINGUAGEM E COSTUMES

O que faz com que, até hoje, textos como “Odisseia”, “Eneida”, “A Divina Comédia”, “Romeu e Julieta”, “Os Romances da Távola Redonda”, “Os Lusíadas”, “Dom Quixote”, entre outros, sejam lidos, interpretados nos palcos dos teatros mundo afora, ou se tornem filmes? Então… Esses textos rompem com qualquer tipo de padrão e parecem sempre ter alguma coisa a nos dizer. É praticamente impossível saber quantas pessoas já os leram e é impossível dizer quantas pessoas ainda correrão os olhos por suas páginas e se encantarão com estas histórias. Porque todo clássico é assim.

Imortal.

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