Acompanhando um casal gay da metade dos anos 70 até a metade dos 90, o filme”Holding The Man” apresenta não só uma forte história de amor, mas também um panorama do que significava ser homossexual durante este período. A produção australiana acompanha Timothy e John, que se conhecem no colégio católico e ficam juntos por 15 anos. Dirigido por Neil Armfield, conta uma história real escrita por Timothy Conigrave, em livro de mesmo nome, transformado em peça de teatro com grande impacto no cenário australiano.

A narrativa não-linear é parte importante do filme, que inicia com Tim (Ryan Corr) na Itália, tentando se lembrar onde estava sentado John (Craig Stott) no dia em que deram o primeiro beijo. A partir daí, a história apresenta como se conheceram, ainda na escola, e o começo do envolvimento. As idas e vindas mostram Tim escrevendo sua primeira peça de teatro e a descoberta de que ambos têm AIDS, nos anos 80, retornando para o desenvolvimento do relacionamento e a ida de Tim para a faculdade de Teatro, em 79. Essa dinâmica quebra a obviedade da história, ao não se saber se continuam juntos ou não, com as mudanças de cena. dando um movimento interessante ao filme.

Os primeiros anos são desenvolvidos na descoberta da sexualidade, ao mesmo tempo em que escondem o envolvimento dos amigos e da família. O colégio católico coloca certa pressão, que os jovens vão ignorando e se descuidando até o inspetor religioso brigar com os dois. Uma viagem com amigos acaba expondo o relacionamento, quando surgem os problemas com as famílias, especialmente a de John. O filme conta com participações de grandes nomes do cinema australiano, com Anthony LaPaglia interpretando o pai de John e Guy Pearce (que se destacou internacionalmente com “Priscilla, A Rainha do Deserto”, marcante na história dos filmes LGBT) como o pai de Tim. Estes atores dão força aos dramas familiares ao longo de toda a história.

Tim e John continuam se vendo, mesmo com a proibição dos parentes. Uma nova fase, o início da vida adulta, os coloca em meio a grandes dilemas vividos pela população LGBT da virada dos anos 80: a luta pelo espaço público e o avanço (e medo) da AIDS. As vivências sexuais buscam o distanciamento do tradicional, indo além do relacionamento monogâmico, afetando a relação dos dois. Por ser baseado no livro de Conigrave, há uma fase mais focada em Tim, quando ele está estudando Teatro em Sydney e John fica em Melbourne. Timothy explora sua sexualidade sem preocupações ou remorsos, o que o faz se sentir culpado anos mais tarde, acreditando ter sido ele o responsável pela infecção com o HIV.

“Holding The Man” não é em nenhum momento didático ou histórico, mas acompanha com a visão simples de um personagem esses diversos momentos vividos pela comunidade LGBT ao longo destes anos. Quando, no fim dos anos 70, os gays começavam a ser mais aceitos pela sociedade em geral, principalmente em países como Estados Unidos e Inglaterra, há um retrocesso, com a discussão da AIDS colocando a comunidade em foco de maneira negativa, associando-os à doença. De certa forma, o filme remonta todo este panorama, de maneira leve e emocional.

Na segunda metade dos anos 80, o relacionamento do casal se torna mais forte, quando passam a morar juntos. As famílias vão aos poucos aceitando a relação, mas o conflito continua existindo. Quando John desenvolve um câncer que tiraria sua vida, em 94, seu pai afasta Tim do convívio e o coloca em posição inferior no enterro, como um amigo. Este tipo de embate entre família e cônjuge em casais homoafetivos é uma discussão que se faz atual, por questões legais de diversos países que não aceitam este tipo de casamento. Filmes como “Amor Por Direito” e o documentário “Bridegroom” exploram este problema.

O casal passa junto seus últimos dias, a maioria vividos no hospital pela condição física de John. Tim desenvolve toxoplasmose, piorada em fator da AIDS, o que afeta sua memória. Relembrar John e os quinze anos juntos é essencial para que Tim decida relatar sua vida em livro. A cena de abertura e as últimas do filme apresentam este drama pessoal. Iniciado em uma viagem a Itália, o relato é terminado em um hospital, devido a complicações da toxoplasmose. Timothy morre dez dias após terminar “Holding The Man”, o que não deixa de ter um efeito emotivo no filme.

As interpretações do longa são ótimas, dos atores principais aos coadjuvantes, o que ajuda na narrativa central. O uso dos mesmos atores causa estranhamento nas cenas de Tim e John adolescentes, mas nada que afete a força da história. A trilha sonora acompanha a passagem dos anos com maestria, indo de Bronski Beat e T Rex a Bryan Ferry, com climas de nostalgia. A fotografia mantém um ritmo coeso e não deixa nenhuma cena exagerada, valorizando os cenários e cores de cada etapa do filme.

Como uma fábula romântica, “Holding The Man” traz uma história de amor, de um casal que enfrentou as mais variadas barreiras, das famílias e da sociedade até a morte. Com muita sensibilidade, o longa mostra o amor como algo real, com dramas reais, sem perder o romantismo e a esperança das relações.

 

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