Ao som de gritos eufóricos e risadas altas somos surpreendidos pelo sobrevoo da câmera por entre grades e arames farpados. Ao longe vimos quatro meninas sentadas em volta de uma mesa de madeira, semelhante àquela usada nos típicos piqueniques das famílias americanas e elas conversam sobre a vida…

– Sou a encrenqueira.
– É, eu também!
– Minha primeira condenação foi aos 12.
– A minha também.
– A minha foi aos 13, por fraude.
– A minha foi por roubo.
– A minha foi por beber sendo menor de idade.
[…]
– Eu curtia farrear.
– Cristal?
– Não.
– Então o quê?
– Experimentei uma vez. Não curti. Curto depressivos.
– Eu também, tipo maconha!
– Sim… eheheh.

O breve diálogo marca as primeiras impressões da série Garotas no Cárcere (Girls Incarcerated, 2018) da Netflix e demonstra como elas são inseridas muito jovens em um ambiente que dita as regras do seu comportamento e de seu convívio social e familiar. A produção traz, essencialmente, um olhar sobre o cotidiano de meninas que estão em uma espécie de centro de aplicação de medidas sócio-educativas, o Madison Juvenile Correctional Facility, localizado na cidade de Madison, em Indiana, Estados Unidos. Mas não só isso, promove o debate sobre o contexto social atual e os tipos de crimes que estão levando os adolescentes para a prisão.

Jovens estes que vivenciam um dos momentos mais conturbados de suas vidas, período de desenvolvimento de uma identidade, do estabelecimento de relações amorosas e de confiança, bem como até a controversa necessidade de vivenciar os riscos de algumas transgressões só para se enquadrar a terminado grupo. Como se não bastasse, tudo é intensificado por situações envolvendo a crise financeira do país, a situação afetiva com amigXs, parceirXs, pais e familiares, o uso de drogas e os vários tipos de violência, seja ela física, psicológica ou sexual.

Garotas no Cárcere tem o formato de documentário e apresenta a história de treze meninas, com idade entre 14 e 17 anos. Elas dividem seus dias entre as tarefas rotineiras e as regras impostas pela prisão com as problemáticas da juventude, a angústia de estarem encarceradas e as perspectivas do que as esperam lá fora. Em cada um dos oito episódios, a partir de entrevistas individuais, conhecemos os comportamentos, os estilos de vida, as escolhas e os motivos que levaram essas meninas ao cárcere. Algumas estão no local pela primeira vez, enquanto outras já são veteranas.

De acordo com informações dos profissionais do centro de reeducação de Madison, independentemente da localidade das jovens (pequenas comunidades ou áreas urbanas) seus crimes são semelhantes. Dentre eles estão o roubo, a invasão, o assalto à mão armada, a agressão grave e o porte ilegal de armas ou drogas. Apesar de seus delitos, a maioria delas não foi sentenciada a cumprir uma pena específica, e, sim, levada à Madison para completar um programa para, posteriormente, ser reintegrada à sociedade.

Tal programa é apresentado já no primeiro episódio, que mostra um panorama geral da proposta e da organização da penitenciária de segurança máxima, que conta com ambientes recreativos, atividades pedagógicas e ações de motivação, visando a melhoria do comportamento e a relação com outros indivíduos.

Aparentemente, o foco estaria na ordem, na elaboração de regras e na imposição de limites, bem como no incentivo à educação de cada uma. Nesse ambiente totalmente controlado as jovens ainda recebem apoio psicológico, terapia contra dependência química e têm a oportunidade de se desenvolver social e psicologicamente, uma vez que podem participar de projetos que buscam estimular a consciência crítica e mudança de postura em relação a sua realidade.

Ao conhecer suas histórias, percebemos que as atitudes autoritárias, agressivas e algumas vezes tidas como “mal-educadas” são, essencialmente, mecanismos de defesa, uma vez que camuflam vivências devastadoras de violência e de abandono. Jovens que superaram inúmeras adversidades mesmo com tão pouca idade. De tal modo que, ao mesmo tempo que demonstram uma força e uma impetuosidade incomum, em outro momento são simplesmente meninas inseguras com suas próprias escolhas.

Essa é uma produção que aflora em nós alguns sentimentos contraditórios. O primeiro é o de crítica, pois percebemos que o documentário utiliza da linguagem dramática para ressaltar uma visão ideológica, com o propósito de enaltecer uma instituição prisional norte-americana. Além disso, a interferência da câmera no ambiente de gravação contribui para o desenvolvimento de uma ficcionalização da realidade, bem como influencia em vários momentos o depoimento e até mesmo o comportamento das jovens, já que sabem que estão sendo filmadas.

Apesar disso, a gradual transformação apresentada em cada um dos depoimentos faz com que os espectadores deixem transparecer sua compaixão e também uma torcida pelo sucesso das meninas. Demonstrando, assim, que a primazia da narrativa está no sentimento universal de esperança e na busca constante por um futuro melhor. Algo que todos procuramos em nossa vida. Tanto que no encerramento de cada episódio ficamos com aquela sensação dos contos de fadas: “e viveram felizes para sempre”. Mas, ao final do seriado, percebemos que a realidade dessas jovens fora da prisão é complicada e os desafios são cada vez maiores.

“GAROTAS NO CÁRCERE": REALITY DE UMA PRISÃO JUVENIL
4.3Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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