Esta não é nem de longe a questão primordial deste anime, aliás há questões bem mais importantes e relevantes para a história. Porém ela está lá, enraizada em vários personagens e apesar de ficar em segundo plano foi uma das discussões que mais me encantaram e me fizeram refletir durante o tempo em que me dediquei a assisti-lo. Talvez pela sutileza e a falta dela como a questão foi tratada em meio aos caos. Se você ainda não assistiu a primeira versão do anime de Fullmetal Alchemist aconselho a não prosseguir lendo o texto pois certamente encontrará spoilers mas se já assistiu ou não se importa, te convido a refletir comigo em alguns pontos.

Fullmetal Alchemist é um anime que narra a jornada dos irmãos Alphonse e Edward Elric na busca pelos corpos antigos que perderam através de uma transmutação humana extremamente proibida para alquimistas. A partir daí, vários temas são abordados: como a segregação racial, o poder militar sobre a população, ética, família e outra infinidade de assuntos recorrentes na trama. Eles são os mocinhos e em contrapartida há um leque imenso de vilões: os chamados homúnculos – seres que apesar de terem a aparência humana, não possuem alma e por isso não são considerados humanos.

Vilões e mocinhos estão interligados pelo mesmo objetivo: a criação da Pedra Filosofal. Enquanto os irmãos Elric querem recuperar de volta algo que lhes foi tirado os homúnculos querem o que nunca tiveram: serem humanos. Mas para uma melhor compreensão do plot precisamos ir ainda mais a fundo. Como nasce um homúnculo já que eles não são humanos? Pois bem, homúnculos nascem de uma transmutação humana mal sucedida igual a que os irmãos Elric fizeram para trazer sua mãe de volta à vida. Ou seja, eles são nada mais do que uma transmutação humana falha. E até o presente momento da linha temporal não há notícias de que alguma transmutação humana algum dia conseguiu ser bem-sucedida.

Todo alquimista deve obedecer a troca equivalente, que é como uma ordem natural das coisas neste mundo. Você só pode transmutar algo se der outra coisa de igual valor em troca. Um bom exemplo disso é que em um dos episódios Edward quebra um rádio de um dos moradores de uma cidade em que estava passando. Depois de desenhar o círculo de transmutação ele colocou o rádio no centro e usou alquimia para concertá-lo. Para que isso fosse possível, ele deu o rádio mesmo que quebrado em troca para poder consertá-lo. Mas ao decorrer do anime esse conceito se expande em várias vertentes, outro exemplo é transformar água em gelo e até mesmo em etanol. Se você já viu o anime sabe do que estou falando e inclusive esse é um dos momentos mais tensos dele.

Mas a Pedra Filosofal quebra completamente o conceito da troca equivalente. Se você a possuir pode fazer qualquer tipo de transmutação sem precisar dar algo de igual valor em troca. É como se você tivesse um poder infinito enquanto a possuir para fazer o que quiser. Mas bem, estou apenas divagando e contextualizando o cenário para irmos ao que realmente importa: o que nos torna humanos? Alphonse perdeu completamente seu corpo e sua alma foi aprisionada em uma armadura de ferro enquanto Edward perdeu um braço e uma perna para que isso fosse possível: teoricamente a troca equivalente. Mas sem um corpo, apenas com a alma, Alphonse continua sendo humano? Acho interessante que em um determinado momento ele cogitou não ser de verdade, apenas uma armadura com lembranças falsas. O que mais pra frente se provou não ser verdade.

Apesar da relação dos irmãos ser muito bem explorada os personagens que mais me fascinaram de fato foram os homúnculos. Entre eles estava a Luxúria, com a aparência de uma moça bela e elegante. Por algum motivo era atormentada pelas lembranças da mulher que alguém tentou trazer de volta a vida e obviamente falhou, mas que deu origem a sua existência. As lembranças não lhe faziam sentido, mas tinham grande poder sobre ela. Homúnculos não morrem como os humanos. Eles têm vida eterna se ninguém selá-los em um círculo de transmutação especial junto com os restos mortais da pessoa morta que lhes possibilitou vir à vida. Uma morte difícil de ocorrer levando em consideração de que pouquíssimas pessoas sabem de sua existência. E em um dos momentos mais brilhantes de todo o anime em minha opinião foi à descoberta que ela fez estando perto da morte: ela nutria o desejo inconsciente daquela mulher que esteve muito doente de se tornar humana para poder morrer. Isso foi um soco na boca do estômago do espectador.

Outro homúnculo fascinante foi a Indolência, que correspondia a transmutação humana que os irmãos Elric fizeram. Por um bom tempo ela quis se tornar humana até descobrir que toda a dor e aflição que sentia em seu âmago era causada pelos garotos e se eles estivessem mortos talvez ela não fosse mais atormentada pelas lembranças da mãe deles. Ela sentia um grande conflito entre não machucá-los e de fazer o completo oposto, usando-os para conseguir criar a Pedra Filosofal. Isso me levantou outra questão: a diferença dos homúnculos para os humanos era apenas o fato de que os humanos morriam normalmente. Fui atrás de um conceito mais quadrado sobre o que é ser humano no dicionário e descobri que não há um conceito pré-determinado. O que me levou a procurar o significado das palavras chaves quais apresentei no título deste texto e elas foram:

Alma sf. 1. Princípio de vida.

Carne sf. 4. O corpo, a matéria, em oposição ao espírito.

Quando cheguei nesta exata parte do texto eu não sabia como prosseguir. Fiquei dias pensando numa forma de avançar de algum modo e ir adiante ao meu raciocínio, pensar numa conclusão satisfatória mas a verdade foi que eu me perdi completamente e eu não sabia como continuar. Pensei em abandonar o debate cujo madrugadas martelou minha cabeça e decidi que não iria simplesmente levar tudo aqui dito ao lixo. Não tenho vergonha de admitir que ainda não faço ideia de como concluir mas me orgulho de tentar.

Pensando ainda sobre o que nos torna humanos e levando em consideração o dicionário a resposta facilmente seria a alma. E de fato, se a alma é o princípio da vida quem não a possui não pode ser considerado humano. Ai você chega até aqui achando que iria ler algo revelador e que explodiria sua mente para ter uma conclusão tão lógica e medíocre. Mas não vamos nos ater apenas ao óbvio. Creio que ser humano vai além da alma, que, querendo ou não é apenas um conceito. Não temos como provar que a alma de fato existe então vamos esquecer por um segundo que ela possa teoricamente ser real. Tirando completamente o conceito de alma de nossas cabeças vamos seguir adiante.

Animais possuem instinto, plantas até onde sabemos não possuem raciocínio e uma pedra é apenas uma pedra. Agora nós, humanos, somos feitos de carne, osso, sentimentos, confusão e desejos. O que, além de toda a linha evolutiva, poderia nos diferenciar das demais coisas e nos classificar um pouco acima dos outros seres? Se você respondeu a capacidade de pensar você está completamente certo, mas os sentimentos também poderiam entrar aqui. O sentimento vem da carne, a raiva, o ódio, o amor, a compaixão são sentimentos. Não há nada mais humano do que um ser dotado dessas coisas. Um homúnculo pode não possuir uma alma, mas possui um corpo e está cheio de anseios. Em vários momentos vemos que eles estão em conflito com os próprios desejos, que podem mudar de lado, que podem ver que estão errados e tentar fazer a coisa certa. Como também vemos o egoismo, vemos eles indo atrás dos prazeres que apenas a carne poderia trazer. Eles choram, se apaixonam e eles são humanos sem alma.

Então se você chegou até aqui saiba que não temos uma conclusão expressamente dita. Apenas você pode dizer qual ideia pode seguir e tomar pra si. Não temos certo ou errado, temos apenas uma questão idêntica a uma dizima periódica: ela não tem fim.

 

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