Os últimos séculos foram essenciais para que a humanidade pudesse lutar pelos seus Direitos Fundamentais. Causado pelas violações trabalhistas durante as revoluções industriais, ou os crimes hediondos cometidos na Segunda Guerra, o dano à integridade do indivíduo estava em voga no século XX. De tal forma, não foram poucos os autores que versaram sobre o tema, como Orwell, com seu mundo fictício, em que as liberdades individuais eram suprimidas em prol de um governo totalitário. Porém, foi Huxley em Admirável Mundo Novo que nos ensinou que não apenas o controle absoluto poderia dominar a humanidade, a competição pelo sorriso também.

Livro Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley.

Tal competição, evidenciada pelo autor em 1932, se encontra perfeitamente refletida no século XXI. Enraizada em nossa sociedade, as redes sociais tornaram-se um espaço para competições de sorrisos. Assim como na obra de Huxley, a sociabilidade está diretamente ligada ao sucesso e felicidade dos indivíduos. Seja compartilhando fotos, atualizando status, ou até mentindo sobre fatos, o cidadão do Novo Século encontra-se mergulhado na bolha social em que vive e não quer sair dela. Outra obra que dialoga com o assunto é o filme A Ilha, de 2005.

Na história do filme, somos apresentados a um grupo de pessoas que são levadas a acreditar que o mundo fora do casulo em que vivem é inabitável. Alimentados com a mentira, a única realidade que conhecem é aquela em que estão circundados. Como o reflexo de um rio, a sociedade atual não é diferente daquela apresentada no filme. O casulo social da felicidade impede que as pessoas enfrentem o verdadeiro problema que nasce sorrateiramente do lado de fora: as doenças psicológicas.

Filme A Ilha, de 2005.

Assim como na obra de Huxley, as doenças psicológicas são tratadas como irrelevantes pela indústria do prazer e competição pelo sorriso. Nesse prisma, a depressão muitas das vezes é vista pela sociedade como um mal menor. O portador é ignorado ou não levado a sério, pois, tal qual ocorre em Admirável Mundo Novo, a tristeza não é social. Nesse pensamento, forçado a esconder a doença, o indivíduo evita a busca por ajuda profissional, uma vez que está mergulhado no casulo da felicidade.

E tal casulo é alimentado por propagandas massivas do mundo capitalista, que, equiparando-se ao medicamento Soma de Huxley, apresenta diversos itens de consumo que auxiliam a pessoa na busca pela felicidade e competição do sorriso, fazendo com que pareça que a depressão pode ser curada com compras e não com intervenção profissional. Restando, portanto, à humanidade perceber que tal investida desenfreada do mercado capitalista, a indústria do prazer, gera danos irremediáveis à integridade do ser humano.

Dessa forma, a indústria do prazer é prova de que a luta pelos Direitos Fundamentais não está acabada, dado que as violações podem vir travestidas de uma busca pela felicidade. Então, diferente do medo e absolutismo que Orwell imaginou que nos aprisionaria, é por meio da ditadura do sorriso que a humanidade mergulhou em um casulo que não consegue sair. E, não existindo uma droga milagrosa tal qual o Soma de Huxley para espantar a tristeza, resta ao ser humano encontrar ajuda profissional para escapar da competição do sorriso e enfrentar os males que podem levar ao seu fim, como a depressão.

 

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