Nos dias atuais fomos bombardeados por histórias de heróis e sociedades distópicas no cinema e na literatura. Entre líderes totalitários e heróis superpoderosos, não foram poucas as vezes que corremos para as filas do cinema ou para alguma livraria para conferir o novo filme ou a nova obra dessas temáticas que tanto nos atraem. Alguns podem pensar que ambos os gêneros se encontram desgastados com o passar dos anos. Contudo, engana-se quem pensa assim. Prova disso é o cultuado escritor Brandon Sanderson, que nos mostra que ainda há espaço para histórias de heróis e distopias.

Capa da versão brasileira da obra.

A série Executores é sobre um mundo em que pessoas comuns recebem superpoderes, porém, todas elas são malignas e tornam-se vilãs. O vilão do livro, Coração de Aço, matou o pai de David, protagonista da obra, quando ele era apenas uma criança. Dez anos se passaram e David jurou vingança contra o ditador superpoderoso que governa a cidade de Chicago (conhecida no livro como Nova Chicago).

Narrado em primeira pessoa, a obra de Sanderson é um marco na escrita contemporânea. Com descrições sutis, mas eficazes, e diálogos precisos que ajudam no desenrolar da história, em momento algum o leitor fica perdido nos acontecimentos. O autor aposta em uma linguagem simples, condizente com o personagem narrador, que na obra tem apenas 18 anos, e que, de certa forma, se aproxima de seu público alvo.

O prólogo começa com uma facada no peito. Somos apresentados logo de cara para o vilão do livro e assassino do pai de David. E é aí que entendemos a motivação do protagonista e, mais que isso, torcemos por ele.

Mas Coração de Aço não é o único vilão que traz problemas para os heróis do livro, representados por David e pelos executores – pessoas comuns que dedicam suas vidas para exterminar os vilões – há também outros épicos (nome que é dado às pessoas que têm superpoderes) que se aliaram ao Coração de Aço. E é aí que mora o problema. Todos os heróis do livro não têm superpoderes, mas os vilões sim. Quais chances teria um garoto de 18 anos contra um homem invulnerável, que voa e que tem uma força física absurda?

Brandon Sanderson, autor da obra Coração de Aço.

Acontece que cada um dos vilões tem um ponto fraco, que vai desde armas específicas até um suco artificial sabor uva. Não há muito espaço para explicações no primeiro livro da trilogia executores. Aqui o motivo é claro: a vingança de David.

E nisso o autor acerta em cheio. A motivação do protagonista é o que faz as páginas serem viradas com tanta voracidade. Porém, se o autor acerta com o herói, onde ele erra é justamente no vilão que nomeou o livro.

Talvez esse seja o principal ponto fraco dos livros em primeira pessoa: o leitor só tem um ponto de vista. Em alguns momentos a história clama por isso, mas em outros seria interessante saber o que se passa na mente dos antagonistas. Fora o impactante início e o final, só lembramos que Coração de Aço é o vilão do livro porque os heróis não param de falar seu nome e lutar contra seus lacaios.

Um bom vilão não é aquele que está sempre cara a cara com o protagonista, mas sim aquele que consegue fazer da vida do herói um verdadeiro inferno. Um bom exemplo disso é Star Trek II – a ira de Khan de 1892. Em momento algum o capitão da Enterprise, James T. Kirk, se encontra com Khan (no máximo se olham através da tela das naves espaciais), mas a motivação do vilão e seus dilemas pessoais são sempre claros. Em Coração de Aço isso não acontece. O vilão é mau porque é mau. É claro que existe uma explicação para isso (que será dada nos próximos livros da série), mas saber mais sobre os pensamentos de Coração de Aço talvez traria mais peso à narrativa.

Em suma, Coração de Aço é um dos melhores livros do gênero. Aborda a temática de super-heróis (ou super-vilões) com maestria, aliando-se ao gênero distópico que nos atrai tanto. A continuação da série, Tormenta de Fogo, já foi lançada no Brasil e em breve eu trarei a crítica com minhas opiniões. Apesar dos poucos erros, Coração de Aço (e quase tudo que Brandon Sanderson escreve) está entre as minhas melhores leituras, e é um livro que não se pode deixar de lado.

Coração de Aço foi publicado no Brasil pela editora Aleph.

Entre heróis e distopias: Coração de Aço
4.5Pontuação geral
Capa
Revisão
Diagramação
Originalidade
Personagens
Desenvolvimento

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