Não é uma história de amor. Não é uma história de guerra. “Enquanto a Inglaterra Dorme”, livro de David Leavitt lançado em 2003 no Brasil, é as duas coisas, sem ser nenhuma delas. A chave do romance é o olhar do narrador em primeira pessoa para sua vida, recontando um período conturbado tanto para ele quanto para o mundo.

Leavitt tem outros livros de maior destaque, incluindo uma biografia de Alan Turing. Elogiado por grandes jornais norte-americanos, incluindo o The Guardian, tem poucas obras em seu histórico, com uma parcela ainda menor de traduções para o português. “Enquanto a Inglaterra Dorme” é seu terceiro romance, que consagra sua maturidade literária.

O livro revela as memórias de Brian Botsford nos anos 1930, um jovem romancista com bloqueio criativo, um relacionamento com um homem de classe mais baixa e a sombra de uma guerra mundial que se aproxima. A imersão do leitor na história é guiada com maestria por Leavitt.

Brian vive momentos confusos, pedindo dinheiro a sua tia, que o obriga a conhecer jovens solteiras que possam dar um rumo à sua vida. Ele não mostra nenhum interesse em casamento, já que passa parte do tempo procurando rapazes em locais públicos para sexo rápido. Acompanhando um amigo em uma reunião comunista, conhece Edward Phelan, um rapaz bem jovem e pobre. Eles passam a morar juntos, em uma relação complicada. Brian acredita que sua homossexualidade é apenas uma fase, que logo desiste e casa-se com uma mulher, para o deleite da tia.

A inocência de Edward é tão pura quanto triste. O livro não se adianta aos fatos, apesar de ser uma memória, dá um bom ritmo sem criar ansiedade. Aos poucos são revelados detalhes importantes de Edward, como seu interesse genuíno em lutar contra Franco na Espanha, unindo-se aos comunistas.

Esse pano de fundo histórico é o que dá o nome do livro. São detalhes, no início, que revelam como a Inglaterra estava desconexa das dificuldades que países vizinhos viviam em meados dos anos 1930. O General Franco já preparava seu levante militar que o colocaria na presidência espanhola, enquanto Hitler era até elogiado pela elite inglesa. O protagonista mantém maior contato com essas realidades por causa de Edward, inclusive sendo um dos problemas para Brian nessa relação, além das diferenças sociais. Acompanhar, em primeira pessoa, os sentimentos negativos de Brian pelo companheiro são pesados.

Egoísmo e culpa se mesclam na segunda metade do livro, quando a história ganha mais ritmo. O começo parece lento, especialmente se pensando que é a memória de um período específico, mas os pequenos detalhes ajudam na construção bem concreta dos personagens e a entender as escolhas e atitudes de Brian. A família de Edward é muito interessante e bem desenvolvida.

A escolha do período histórico para retratar um romance gay, em uma época que qualquer ato homossexual era crime na Inglaterra, é um ótimo pano de fundo para discutir assuntos mais profundos. As difíceis relações sócio-econômicas são bem exploradas no livro, mostrando que há muito mais em um relacionamento do que amor puro e simples. Ver esse mundo pelos olhos – e pelos vários defeitos – de Brian tornam a leitura complexa e memorável.

 

"Enquanto a Inglaterra Dorme" explora as relações no período entre guerras
4.5Pontuação geral
CAPA
REVISÃO
DIAGRAMAÇÃO
ORIGINALIDADE
PERSONAGENS
DESENVOLVIMENTO

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