Sinto muito por escrever esta coluna tão desafortunada sobre a trágica história de três crianças desventuradas. Se você pode ler coisas mais alegres como uma coluna sobre a série de comédia One Day at a Time é melhor você o fazer e deixar de lado palavras tão melancólicas. Contudo, se você não se importa em conhecer uma série de livros tão infeliz, continue correndo seus olhos por esse texto.

Desventuras em série são 13 livros publicados pela primeira vez no Brasil em 2001, pela editora Companhia das Letras. A história dos órfãos Baudelaire ganhou popularidade com a adaptação para o cinema em 2004. Isso já faz mais de uma década, mas, com a nova adaptação produzida pela Netflix, os órfãos estão no auge novamente (ou estão in, como diria uma das personagens mais icônicas de Desventuras). Como a segunda temporada da série foi lançada recentemente, pensei que essa seria uma boa oportunidade para divulgar os livros. Não que livros tão angustiantes devessem ser divulgados.

Como já diz o título do primeiro volume da série, O mau começo, as desventuras das crianças começam logo no início da narrativa: os Baudelaire morrem em um incêndio devastador em sua casa, deixando órfãos Sunny, uma bebê com dentes afiadíssimos e uma vontade insaciável de morder, Klaus, o inteligentíssimo garoto de 12 anos, e Violet, a primogênita criativa, inventiva e habilidosa. Quando Violet completar 18 anos, as crianças terão direito à herança deixada pelos pais, mas, até lá, deverão encontrar um tutor para cuidar delas por 4 anos. No entanto, o primeiro tutor que encontram, Conde Olaf, é um maléfico ator que nutre ódio pela família Baudelaire e é capaz de cometer grandes perfídias para roubar a herança das crianças. Além de enfrentar as tiranias e perseguições de Olaf, os órfãos vão atrás de descobrir os segredos de uma organização que parece estar ligada a seus falecidos pais e de entender as circunstâncias que causaram o misterioso incêndio fatal.

Sem dúvidas, a narração de Desventuras em série é a característica que mais chama a atenção nos livros e talvez seja seu maior atrativo. Pseudônimo de Daniel Handler, Lemony Snicket, autor e narrador dos livros, contraria o comum dos narradores em terceira pessoa e é extremamente subjetivo ao contar as desventuras. Isso se deve ao fato de ele ter certo envolvimento com os eventos ocorridos, direta ou indiretamente. De certa forma, ele também é personagem, mesmo que não participe imediatamente da história principal (a dos órfãos): Snicket é uma personalidade importante para os acontecimentos que permitiram que a história das crianças acontecesse. Lemony Snicket escreve a vida das crianças fazendo pesquisas do jeito que pode e enviando os originais para seu editor sob as mais perigosas circunstâncias. Além disso, dedica todos os livros a Beatrice, instigando a curiosidade do leitor sobre tão misteriosa e amada — e morta — personagem.

É interessante que o autor faz com que até as personagens secundárias da história tenham características bem idiossincráticas. Portanto, conectar-se com as personagens é muito fácil, seja por amá-las ou odiá-las, por achá-las incríveis ou extremamente irritantes. Snicket escreve de forma a fazer o leitor querer virar as páginas sem parar, ávido pelo decorrer do enredo, independentemente dos spoilers que aparecem na própria narrativa.

As ilustrações de Brett Helquist são um show à parte, mas, simultaneamente, enriquecem a leitura de Desventuras. Com os desenhos das capas e dos miolos, fazer parte do trágico universo dos Baudelaire é uma experiência mais vívida. Influenciando-se pelo olhar de Helquist, imaginar determinadas cenas é fascinante.

Não posso deixar de mencionar que a tradução de Desventuras em Série para o português brasileiro, de Carlos Sussekind e Ricardo Gouveia, é muito bem feita. No decorrer da história, por exemplo, aparecem diversas sentenças que remetem a uma sigla em inglês que teve de ser traduzida para o português, e houve o cuidado de se traduzir cada frase de forma a se encaixar na sigla em português. Com certeza, não foi um trabalho fácil.

Lemony Snicket deixa claro desde o início que as desventuras dos órfãos Baudelaire são extremamente infelizes e que seria melhor estudar o monótono ciclo da água que ler tais desgraças. Ainda assim, é impossível largar as páginas sem antes desvendar todos os segredos possíveis, emocionar-se e torcer pelas crianças até o último segundo. Apesar de a série contar com vários livros, eles são curtos e fáceis de ler, além de serem (mesmo que trágicos) bem divertidos. Caríssimos Senhores Colegas, fiquem o mais longe possível de tal enredo, mas, se impossível, façam bom proveito.

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