Olá pessoal, tudo bem? Estou me propondo no artigo de hoje, a promover uma discussão sobre as questões de gênero tendo por base o texto literário. Para tanto, estou usando como aporte o livro de Jeffrey Eugenides, Middlesex, publicado no Brasil em 2003.

Neste livro, Eugenides apresenta aos seus leitores a saga de Calliope Stephanides, a caçula de uma família que descendia de imigrantes gregos que, quando nasceu, foi identificada enquanto uma pessoa pertencente ao gênero biológico feminino, mas na adolescência, começou a desenvolver traços masculinos.

Acontece que a jovem Calliope era hermafrodita. Geneticamente ela era um homem, mas devido à forma como foi criada, em alguns momentos sentia-se uma mulher e era nessa condição que procurava agir. O livro de Eugenides conta a história desta pessoa que enfrenta a vergonha, momentos de dúvidas cruéis sobre si mesma e que supera a própria maneira como foi criada para descobrir-se enquanto protagonista da sua trajetória de vida e libertar-se.

 

Quero abrir a minha pauta comentando sobre o fato de que nenhuma sociedade constrói seu arsenal de ferramentas através das quais modela a sua forma de ver o mundo e a sua forma de ser no mundo a partir do nada. Ou seja, todas as sociedades (incluindo a nossa!) buscam referenciais a partir dos quais espelham suas representações, as imagens que possuem de si e os significados que desdobram a partir dessas imagens. E isso vale para as questões de gênero.

Estas representações compreendem espaços articuladores das ideias que um determinado grupo social tem a respeito da educação, da literatura, da arte em suas múltiplas variáveis etc. Neste contexto é possível compreender um espaço e um imaginário social.

É a partir deste imaginário social que nós, enquanto sujeitos, constituímos aquilo que é ideal. Tendo esse ideal como ponto de partida, construímos nossos significantes (elementos que são representativos de sua classe) e nossos significados (elementos abstratos que conferem sentido as coisas).

Assim, os elementos que constituem a linguagem formam um sistema através dos quais as pessoas socializam normas de comportamento, formas de ação e padrões de certo e errado, os quais só adquirem sentido quando estão inseridos em um processo de inter-relação. Na verdade, eles só fazem sentido quando estão articulados a partir das vivências/experiência do grupo.

 

A construção destes sentidos a partir das palavras é que permite que as pessoas existam ou se tornem invisíveis aos olhos do grupo social do qual fazem parte. Está confuso? Vou tentar explicar de forma mais clara: qual o lugar da pessoa transgênero na nossa sociedade? Ou de uma pessoa hermafrodita? Ou de uma pessoa gay?

Espero que vocês tenham observado a ênfase que foi dada à palavra “pessoa”. Porque ao fim e ao cabo é esta ênfase que interessa.

O texto de Eugenides nos mostra que, para entendermos sobre questões referentes ao gênero, é preciso considerar muito mais do que o sexo biologicamente definido. E também preciso considerar quais são as raízes que permeiam nossa forma de ver o mundo e nossa forma de ser no mundo.

É preciso compreender a diversidade a partir do que dela se projeta, ou seja, o desejo de existir. E não necessariamente isso significa que eu preciso ser como o outro. Isso significa, em verdade, que eu preciso respeitar o outro enquanto sujeito de si.

 

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