Desde as primeiras páginas de Olhos D’água (2016), de Conceição Evaristo, somos envolvidxs pelas palavras de mulheres que se despem de suas amarras existenciais para partilhar conosco um pouco de suas escolhas, lembranças, angústias e amores. Já no prefácio do livro ganhador do Prêmio Jabuti (2015), Heloísa Toller Gomes nos alerta:

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Conceição ajusta o foco de seu interesse na população afro-brasileira abordando, sem meias palavras, a pobreza e a violência urbana que a acometem. […] Sem sentimentalismos facilitadores, mas sempre incorporando a tessitura poética à ficção, os contos apresentam uma significativa galeria de mulheres (p.09).

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São mulheres-crianças-avós-filhas-amantes. Muitas mulheres-mães. Outras, apenas mulheres… sonhadoras, trabalhadoras, bandidas, prostitutas e mendigas, cujas narrativas fortes e poéticas nos arrancam reflexões do mundo em que vivem. Seja por meio de sorrisos nervosos, lágrimas nostálgicas ou alguns suspiros angustiantes, é quase impossível não se sensibilizar com seus “dilemas sociais, sexuais, existenciais, numa pluralidade e vulnerabilidade que constituem a humana condição” (p.10).

No conto que dá nome à obra, o medo do esquecimento desperta na narradora uma busca por sua essência. Ao questionar “mas de que cor eram os olhos de minha mãe?”, ela se propõe a cumprir um ritual de descoberta. Rememora fatos de uma infância marcada pela fortaleza de uma mulher-mãe, que de forma lúdica dribla a miséria e a fome de suas filhas.

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A mãe, então, espichava o braço, que ia até o céu, colhia aquela nuvem, repartia em pedacinhos e enfiava rápido na boca de cada uma de nós. Tudo tinha de ser muito rápido, antes que a nuvem derretesse e com ela os nossos sonhos se esvaecessem também (p.17).

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Ao adentrarmos o livro, outros sentimentos nos acompanham. Em cada conto somos inseridxs em várias situações de violência, ódio e misoginia. Como na história de Ana Davenga, uma mulher-amante que tem a vida e a identidade ligadas ao seu homem, Davenga, um assaltante procurado pela polícia, e à “pequena semente, quase sonho ainda”, que carrega em seu ventre.

Em Duzu-Querença acompanhamos o desabrochar de uma menina-mulher. Ela, ao ser levada pelo pai à cidade, numa atitude esperançosa da filha ter outras opções de trabalho e estudo, encontra fregueses e fama numa vida que a obriga a se acostumar “às pancadas dos cafetões, aos mandos e desmandos das cafetinas. Habituou-se à morte como uma forma de vida” (p.34).

O limiar da vida e da morte também marca as histórias: MariaQuantos filhos Natalina teve? e Zaíta esqueceu de guardar os brinquedos. Nelas o ódio, a violência sexual e a violência urbana não apenas dilaceram o corpo e o ventre, como também acabam com a inocência da infância. Contudo, apesar de toda angústia proporcionada pela obra, encontramos alento na narrativa da pequena Ayoluwa, a alegria do nosso povo e no ventre-milagre de Bamidele, que desperta a esperança de

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toda a comunidade, mulheres, homens, os poucos velhos que ainda persistiam vivos, alguns mais jovens que escolheram não morrer, os pequenininhos que ainda não tinham sido contaminados totalmente pela tristeza. […] O seu inicial grito, comprovando que nascia viva, acordou todos nós. E partir daí tudo mudou. Tomamos novamente a vida com as nossas mãos (p.114).

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Uma bela alegoria para o atual protagonismo e reconhecimento da escritora Maria da Conceição Evaristo de Brito. Uma poetiza mineira, nascida numa favela de Belo Horizonte e que teve a infância rodeada de histórias que hoje nos encantam:

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Leitura do poema “Vozes-Mulheres”

 

Apaixonada pelas palavras, Conceição Evaristo se formou em Letras, é mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rio e doutora em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF). É ainda autora do romance Ponciá Vicêncio (2003), Becos da Memória (2006), Insubmissas lágrimas de mulheres (2011) e Histórias de leves enganos e parecenças (2016).

Aliás, sua representatividade na Literatura Brasileira ganhou força em uma petição online organizada pela Profa. Dra. Denise Carrascosa, professora de Literatura da Universidade Federal da Bahia, que reúne assinaturas para que a escritora mineira integre a Academia Brasileira de Letras.

A campanha #ConceiçãoEvaristoNaABL é pela ocupação da cadeira de n° 7, cujo patrono é o poeta Castro Alves, “que escreveu criticamente sobre a escravidão a uma distância segura de não tê-la conhecido de fato. Esta é uma campanha […] pela intelectual negra que conheceu a escravidão desde sua linhagem ancestral e em seu corpo de mulher afro-brasileira que escrevive suas tragédias e potências contemporâneas cotidianas”.

Eu já assinei essa petição! E você?

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A TESSITURA POÉTICA DAS MULHERES DE CONCEIÇÃO EVARISTO EM OLHOS D’ÁGUA
4.9Pontuação geral
CAPA
REVISÃO
DIAGRAMAÇÃO
ORIGINALIDADE
PERSONAGENS
DESENVOLVIMENTO

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