Se a Trilogia Comando Sul pudesse ser traduzida em imagem, seria um fractal. Isso porque, quanto mais próximo se observam os detalhes dos livros, mais perguntas surgem – nem sempre com respostas. Ao analisar a Área X tanto de fora quanto de dentro, pela visão de um homem com alto cargo ou de uma pesquisadora como tantos outros que ali já passaram, a região continua um mistério. Como Jeff VanderMeer mantém o interesse do leitor preso a uma trama que traz cada vez mais questionamentos sem solução?

“Aniquilação” foi uma grande surpresa no mercado editorial, publicado em 2014 um pouco tímido, foi elogiado por Stephen King, o que deu certa amplitude à trilogia. Os outros dois livros foram publicados em seguida. No Brasil, o primeiro saiu no fim do mesmo ano, em edições bem trabalhadas pela Intrínseca. As capas da trilogia mantém as ilustrações originais das norte-americanas, cada uma com pequenos detalhes que só são compreendidos após a leitura, mantendo a aura de suspense. Os traços brilhantes também se relacionam com os acontecimentos da trilogia, o que faz os livros físicos se tornarem muito atraentes, especialmente para colecionadores.

Quando VanderMeer venceu o Nebula, um dos maiores prêmios da literatura de ficção científica, em 2015, a obra se tornou um sucesso. Um filme baseado na primeira parte da Trilogia Comando Sul foi lançado em março na Netflix Brasil. Com direção de Alex Garland (aclamado por “Ex Machina”) e protagonizado por Natalie Portman, o longa criou grande expectativa. A história tem mudanças consideráveis, não podendo ser chamada de uma adaptação fiel, mas em aspectos visuais, alimenta as descrições de VanderMeer com perfeição. A fronteira da Área X é talvez um dos maiores ganhos para a narrativa, bem como a atmosfera de estranheza e terror do livro que o diretor mantém do início ao fim.

A escolha do autor de “Aniquilação”, “Autoridade” e “Aceitação” para as obras é essencial na construção do universo da Trilogia Comando Sul. Cada um dos livros da saga é narrado de uma maneira, o que faz toda a diferença na experiência da leitura. Compreender a história exige muita construção do próprio leitor, e entender a diferença entre narrativas pode ser um ótimo ponto de partida para buscar suas próprias respostas.

(o texto contém alguns spoilers sobre a trilogia)

“Aniquilação”

O primeiro livro tem uma narrativa voltada à primeira pessoa, acompanhando a bióloga na 12ª expedição na Área X. Essa região misteriosa é estudada pelo Comando Sul, braço do governo dedicado a entender se há algum perigo ali e como contê-lo. O marido da bióloga fez parte da expedição anterior, seu primeiro contato com a Área X. Quando ele retorna com um comportamento estranho e morre em poucos meses, ela se voluntaria para a visita seguinte à zona desconhecida.

Esses detalhes são apresentados aos poucos, incluindo a relação dela com o marido e a sua infância, enquanto ela tenta descobrir o que acontece na Área X. Com o estilo de narração do livro, tudo o que se sabe da história é o que a bióloga decide contar em seu diário. Ela guia o leitor pelo que acha interessante ou não. Um ponto marcante de “Aniquilação” é que os personagens não recebem nomes, todos são chamados por suas profissões. A bióloga só se refere às suas companheiras de expedição como a topógrafa, a antropóloga e a psicóloga.

Esse afastamento dos outros personagens que parece uma imposição do Comando Sul no início, para que suas integrantes foquem na pesquisa e não na vida das companheiras, acaba se tornando prático para a protagonista. Ela se revela uma pessoa bem direta em seu objetivo de entender a Área X sem se envolver emocionalmente com as outras exploradoras, em um nível até exagerado, arriscando muitas vezes a vida das outras. Mas com a narração em primeira pessoa, o leitor se envolve com a personagem ao ponto de não perceber antes do fim da obra o quanto ela omite da história.

Os momentos de tensão e horror se tornam mais próximos do leitor ao entender o sentimento da bióloga em cada ação. O estranhamento que ela tem na Área X se torna o próprio estranhamento de quem lê, e a falta de uma descrição concreta de criaturas ou espaços – como a discussão se uma região descoberta é um túnel ou uma torre – também passa o medo do desconhecido com intensidade.

“Autoridade”

A segunda parte da trilogia transfere a narrativa para a terceira pessoa e já não acompanha a bióloga. Aqui, ela é apenas um eco dentro da história de Controle, personagem chamado John mas que curiosamente prefere este apelido. O autor retoma aqui o conceito de não dar nomes, agora revelado nesse nome peculiar, afastando o leitor e ao mesmo tempo o atraindo com detalhes da vida destes personagens. Controle passa a maior parte do tempo tentando unir pequenas peças para montar o caótico quebra-cabeça que é a Área X. Enquanto isso, vai-se entendendo o funcionamento do Comando Sul, as disputas de poder e as relações familiares de John.

O livro tem um ritmo bem mais lento e revela menos do que o esperado. Vai-se confirmando teorias sobre as expedições anteriores, sobre a vida do que sai da Área X e novas teorias sobre o que acontece com quem entra no local. Mas tudo tem o passo lento de Controle descobrindo aos poucos essas informações e ainda com receio de responder aos telefonemas de uma pessoa desconhecida, mas com nível superior ao seu, que ele deve obedecer.

As conversas pouco elucidativas com a bióloga, presa no Comando Sul, parecem evasivas em quase todo o romance, até perto do fim, quando se entende de onde vem a confusão dos diálogos.

O nome do livro se reflete por toda a narrativa e aqui se entende porque o nome da saga é Trilogia Comando Sul. A agência que investiga a Área X é tão importante quanto a zona misteriosa, e essas relações de poder que às vezes se mostram maiores do que o próprio entendimento do local é que comandam a trama. A dominância e subserviência dos personagens mostram as intricadas relações do Comando Sul, por isso a escolha de acompanhar Controle, que alcançou um nível mais alto na agência, mas ainda precisa responder a um superior que ele nem conhece, e mesmo assim obedece. Porém, com o olhar mais afastado da terceira pessoa em narrativa, já que o estilo intimista de “Aniquilação” poderia ser um erro com um personagem tão fechado e até egoísta.

“Aceitação”

A última parte da trilogia revela um labirinto complexo. “Aceitação” tem três linhas narrativas: do faroleiro, Saul, da Ave Fantasma (o clone da bióloga feito pela Área X, acompanhada agora por Controle) e da diretora do Comando Sul, que era também a psicóloga da 12ª expedição. Cada história acontece a um tempo diferente, o que causa uma confusão no início da leitura. Agora, são pequenos detalhes que alinham a narrativa de toda a trilogia, onde algumas respostas serão respondidas e outras, não.

Com o faroleiro, descobrimos a região antes do evento que fez surgir a Área X, mas com poucas explicações sobre como. Por vezes, teorias como ação alienígena e experiências militares parecem se confirmar e em seguida serem refutadas. As partes da diretora acontecem trinta anos depois do faroleiro, com ela sendo promovida e explorando a Área X logo antes da 12ª expedição. Descobre-se ainda que seu interesse no local tem um forte apelo emocional. Por fim, a Ave Fantasma está na linha temporal que continua de onde “Autoridade” se encerrou.

Em “Aniquilação”, dentro da torre a ser explorada pela expedição, mensagens escritas cresciam nas paredes, sem o menor sentido e sem tentar uma comunicação real com a bióloga ou as outras mulheres. “Aceitação” revela a origem das palavras (um tipo de poema macabro com ecos religiosos que começava com “De onde jaz o fruto asfixiante que veio da mão do pecador eu trarei as sementes dos mortos para partilhar com os vermes que…”). Ainda assim, não se sabe como nem o porquê disso acontecer, e não ajudam a entender a zona, ou seja, respondendo algumas perguntas mas não todas.

Como os personagens descobrem, o tempo passa de forma diferente dentro da Área X, e isso se reflete na narrativa fragmentada e não-linear de “Aceitação”. Cada história acontece em um momento diferente, revelando variados pormenores sobre a zona. Este é um detalhe pequeno, mas que se torna interessante ao entender o porquê de VanderMeer ter feito esta escolha justamente no último livro.

Essa estrutura separada em múltiplos pontos de vista é essencial para responder perguntas feitas nos dois primeiros livros. Mais do que fazer um personagem conhecido descobrir um segredo, VanderMeer prefere mostrar aquilo, ainda que isso pareça atrasar o final da narrativa. É mais importante revelar estes detalhes do que dar um fim definitivo à Trilogia Comando Sul.

Símbolos e Teorias

Algumas escolhas de Jeff VanderMeer são significativas para a compreensão da trilogia. Em diversas entrevistas, ele revelou seu interesse por aquecimento global, bem como o conceito de hiperobjeto. Quanto à questão ambiental, a relação é clara: toda a vegetação e fauna da Área X, o fato da personagem ser uma bióloga, são alguns detalhes que revelam o interesse do autor em apresentar não uma invasão alienígena ou coisa do gênero, mas em mostrar uma natureza que não é cruel nem benevolente, mas que responde de maneira direta às ações destrutivas da humanidade. O destino das pessoas que permanecem na zona é um ótimo exemplo desta relação. A preocupação de VanderMeer com o tratamento dado ao meio ambiente foi transformado em uma narrativa que beira o horror, justamente para tratar da urgência em se valorizar a natureza.

Jeff VanderMeer por Kyle Cassidy – do site do autor

Em relação ao hiperobjeto, este é um conceito explorado pelo filósofo Timothy Morton em 2010 no livro “The Ecological Thought” e melhor explicado em “Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of The World” (“O Pensamento Ecológico” e “Hiperobjetos: Filosofia e Ecologia depois do fim do mundo”, em traduções livres). Um hiperobjeto seria uma coisa massivamente distribuída no tempo e no espaço relativos ao ser humano. Entram aí conceitos que não se podem ser localizados em um único local ou momento, que o autor usa como exemplo desde os buracos negros até o aquecimento global – este sendo o mais explorado por Morton e que se percebe mais influente na trilogia de VanderMeer.

A própria dificuldade de se entender o conceito de hiperobjeto remonta ao estranhamento da expedição, mais especificamente da bióloga, em explicar o que estava vendo e vivenciando na Área X. Esta seria, então, um hiperobjeto, visualizado como a parte de algo e não como um todo, portanto incompreensível para os exploradores. VanderMeer, em uma palestra, explicou seu entendimento de hiperobjeto como “uma maneira de usar uma palavra como âncora para algo que seria, de outra maneira, difícil de imaginar ou compreender em sua totalidade; a palavra é um importante significante”.

A crítica de Morton é a de que temos uma visão localizada desses fenômenos, e não a visão do todo, por exemplo, de todos os efeitos do aquecimento global. Ainda, que quando falamos da natureza como algo afastado e não intrínseco à humanidade, permitimos que ela seja dominada, explorada e manipulada.

Esta ideia torna-se visível dentro dos livros do Comando Sul quando pensamos na agência como um ambiente que se sabota ao permitir brigas internas e jogos de poder tomarem o espaço do real motivo de entender e conhecer na Área X. As expedições adentram o local tomado pela natureza com medo, preparados para atirar, isolar, consumir a zona ao invés de se permitir fazer parte. Essa relação com a natureza é até certo ponto sutil no texto de VanderMeer, o que torna esta leitura mais difícil de ser feita apenas com a leitura da trilogia. Mas de maneira metafórica, está lá, nos pequenos detalhes, querendo ser vista como um hiperobjeto.

Comentários