No conto “Carta a uma Senhorita em Paris”, Julio Cortazar dá a conhecer a história de um homem que vomitava coelhos. É isso mesmo. Ele vomitava coelhos. Eu sou sincera em dizer que, nem por um momento sequer, duvidei do que Cortazar dizia. Para mim era certo que aquele sujeito colocava seus dedos dentro da boca com um movimento de pinça e de lá de dentro, das profundezas da sua garganta, trazia um coelhinho.

Por que estou escrevendo sobre isso hoje? Talvez pela possibilidade (doce) de que por breves instantes a literatura seja mais verdadeira que a história. Ou então para refletir sobre a possibilidade de ser a história um tanto quanto literatura. Depois da obra de Hayden White e suas críticas epistemológicas à historiografia é preciso tangenciar algumas questões sobre esse assunto.

Comecemos por refletir sobre o fato de que a história criada pelos historiadores não é unificada. Ela apresenta uma série de parcialidades, cronologias heterogêneas e relatos que muitas vezes são contraditórios, dependendo do ponto de vista a partir do qual o documento ou o discurso que atrai a atenção de quem exerce o ofício de historiador, é analisado.

Na opinião de Antoine Compagnon, não existe mais o sentido único que as filosofias totalizantes da história possuíam até Hegel, pelo menos. Para ele a história é uma construção, um relato no qual passado e presente são postos em cena e, portanto, esse contexto tem uma correlação expressiva com a literatura.

 

Não há como negar que o historiador constrói sua lógica de pensamento a partir dos discursos nos quais é engajado. Se ele perde a consciência deste processo deixa de perceber o quanto de projeção ideológica a história possui. Com essa suposição, Compagnon questiona a objetividade do discurso histórico.

Assim, o sujeito que exerce o ofício de historiador trabalharia com prerrogativas que envolvem a construção de narrativas, as representações e as formas textuais em si; de forma que a história passa a apresentar aspectos inerentes ao romance, enquanto o romance revela-se na condição de história que poderia ter sido.

Seguindo a lógica de Antoine Compagnon, arbitrar nesse campo é como andar em uma zona livre de gravidade. Os intelectuais que transitam por ele deveriam aproveitar-se disso para abolir barreiras que impedem o crescimento das fronteiras epistemológicas de ambas as áreas, indo além dos discursos fragmentários e das imposições canônicas e academicistas.

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