Uma sociedade que não tem mais como manter segredos – essa premissa inicial do filme “Anon”, lançamento recente da Netflix, já seria o suficiente para atrair o público para um bom thriller. Mas o desenvolver da história desanima, perdendo a oportunidade de usar um universo interessante com uma história sem ritmo e que desanima já na primeira metade.

“Anon” começa com Sal Friedland (Clive Owen), um detetive indo para o trabalho. Na rua, consegue identificar todas as pessoas que cruzam com ele por nome, profissão e idade, todas as músicas que tocam ao redor (uma na verdade – a trilha sonora é mais incidental e bem fraca), propagandas de produtos que lançam um preview de como o produto fica em você. Uma cidade cinza, sem sons, sem vida, onde tudo que é visto é gravado e pode ser acessado por detetives como Sal. Ninguém parece particularmente empolgado com a possibilidade de ver nomes e merchandising direto na córnea, mas também não incomoda. Não há nem referências a grupos contrários ao, pelo que parece, se tornou lei nesse mundo.

Sal cruza na rua com uma pessoa não identificada (Amanda Seyfried), o que chama atenção. No trabalho, descobre que alguém está hackeando o “Olho” de pessoas e usando isso para não ser filmado e gravado enquanto as mata. Sal se lembra da desconhecida, o que o faz ter certeza que ela está envolvida. Seus colegas de trabalho reforçam a importância de se manter fiel ao sistema, que precisa eliminar qualquer um que tente burlar suas regras.

A trama se desenrola de maneira óbvia e pouco inventiva. Questionamentos que seriam esperados desse tipo de filme quase distópico acabam se perdendo. A própria desconhecida quase não fala o quanto o sistema do “Olho” é invasivo. Sem isso, o filme se torna um noir qualquer, mas no futuro. A dama fatal, o detetive com passado sombrio, tudo está ali, mas mal trabalhado. As atuações são de medianas a ruins, longe do que se espera de atores como Owen e Amanda. As câmeras em primeira pessoa são o destaque do filme, são cenas interessantes, mas que perdem o interesse ao longo da trama, que segue frágil.

A cidade cinza não parece seguir o que se espera de um futuro voltado ao consumo prático e diversificado, provando uma tentativa forçada do diretor Andrew Niccol de simplesmente transpor o clássico noir para alguns anos à frente, sem pensar de fato nas consequências desse futuro. Niccol consegue um desempenho pior do que outros de seus filmes voltados à ficção científica, como “Gattaca” e “O Preço do Amanhã”, um filme sem ritmo e que desperdiça uma boa premissa ao focar demais na adaptação noir e menos no filme em si.

"Anon" não empolga o quanto deveria
3.3Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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