O álbum “Todo interior é igual” foi lançado nas plataformas digitais no final do ano de 2017. Interpretado pelo trio formado por Rafael Alterio, Adriana Sanchez e Guilherme Rondon, as canções, variam entre chamamés, toadas e baladas.

Composto por 12 canções, o álbum possui letras compostas pelo trio e parcerias, como: Alexandre Lemos, Rita Alterio, Ze Edu Camargo, Kléber Alburquerque, Iso Fischer, Paulo Simões, Cistina Saraiva e Celso Viáfora. E são nessas composições e parcerias poéticas que este artigo se refere.

1) “Descendo a Estrada” (Guilherme Rondon e Alexandre Lemos)
2) “Também Lembrei de Você” (Guilherme Rondon e Alexandre Lemos)
3) “Lua Madrinha” (Rafael Altério e Rita Altério)
4) “Hora Contada” (Guilherme Rondon e Ze Edu Camargo
5) “XI de Pirituba Santo André” (Rafael Altério e Kléber Albuquerque)
6) “Feito Vento” (Guilherme Rondon e Alexandre Lemos)
7) “Seu Bordado” (Guilherme Rondon e Alexandre Lemos)
8) “Todo Interior é Igual” (Adriana Sanchez e Alexandre Lemos)
9) “Horizonte” (Guilherme Rondon, Iso Fischer e Paulo Simões)
10) “Dedo de Prosa” (Rafael Altério e Rita Altério)
11) “Rosa Cigana” (Rafael Altério e Cristina Saraiva)
12) “Fogo no Tacho” (Rafael Altério e Celso Viáfora)

Atrevo-me dizer que cada letra vai além da junção de léxicos para trazer rima e formar melodias. Elas são repletas de poesia; construídas cuidadosamente para representar a beleza que o interior possui, seja o interior geográfico ou interior de nossos sentimentos. Dessa forma, escolhi três das doze canções para apresentar, de forma geral, a construção literária deste projeto.

A primeira canção a ser apresentada dá título ao álbum. Ela foi composta por Adriana Sanchez e por Alexandre Lemos. A letra trafega pela simplicidade da vida no campo, pela natureza que o interior nos presenteia, pela pureza das companhias mais singelas. Há, nessa poesia, a capacidade de nos presentear com o cheiro do café, o cheiro da fumaça do cigarro de palha, o colorido e incrível transmutar da borboleta e o calor de uma conversa a beira da fogueira. Todo esse misto sensorial, acompanhado pelo acordeom de Adriana Sanches, o dedilhado do violão e uma percussão serena, completam a beleza poética.

TODO INTERIOR É IGUAL

Tem paisagem que muda de cor
Coração também muda de amor
E pra que o dom de Deus se revele
Tem uns bichos que mudam de pele

A migalha já foi mesa farta
Borboleta também foi lagarta
Mas tem hora que é hora de prosa regada a café
Com um pito de palha na mão e chinelo no pé

Pode ser uma chácara em Minas
Uma roça entre duas colinas
Pode ser no Alambari ou Pantanal
Tanto faz
Todo interior é igual

Tem as tardes que mudam de luz
Nascem rosas e morrem azuis
Tem tristeza que vira aconchego
Funcionário que troca de emprego

Tem a moda que muda os costumes
Tem carinho que vira ciúme
Mas tem hora que é hora da gente lembrar de alguém
Ou ficar em silêncio pensando no mal ou no bem

Pode ser uma alma valente
Pode ser um cristão penitente
Pode ser um doutor, um marginal
Tanto faz
Todo interior é igual

Pode ser uma chácara em Minas
Uma roça entre duas colinas
Pode ser no Alambari ou Pantanal
Tanto faz
Todo interior é igual

A segunda música, que faz abertura do álbum, “Descendo a Estrada”, é composição de Guilherme Rondom e Alexandre Lemos. Os poetas nos presenteiam com o amor esperançoso e sem complexidades. Um amor que espera, que anseia, deseja e se acalma. Este sentimento bom, representado por quem anseia em chegar e quem espera a chegada, também é nos apresentado em forma dos sentidos. Seja no cheiro da flor que perfuma o campo, na janela que ao ser aberta traz o vento e seu frescor, do boiadeiro que vive sua vida na estrada almejando o conforto e aconchego de sua amada, da quentura da fogueira que se transforma em amor com cheiro de cravo e canela.

DESCENDO A ESTRADA
(Clique aqui para ver o vídeo)

Prepara a casa, flor na mão, abre a janela
Pra ensinar seu coração a respirar
O ar e a cor dessa paixão cravo e canela
Que teu desejo gosta tanto de lembrar

Prepara os olhos pra me ver, eu to voltando
E não é hora de saber se é pra ficar
Só sei dizer, foi com você que andei sonhando
Prepara o beijo mais molhado pra me dar

De onde eu vim, andei demais
Um dia aqui, o outro lá na corredeira
E mesmo assim dormi em paz
Porque lembrava de você a noite inteira

Olha pra mim, me dê a mão
E deixe o corpo derreter nessa fogueira
Que não tem fim, abre o portão
E se prepara que eu não to de brincadeira

Fazia tempo eu já devia ter voltado
Não foi falta de saudade e nem de dor
Mas é que as vezes eu estava tão cansado
Que me bastava recorder o teu amor

Mas pode olhar eu já estou descendo a Estrada
Prepara a voz pra me dizer que eu demorei
Prepara o dia pra esperar a madrugada
E se prepara pro amor que eu preparei.

Lua Madrinha, terceira faixa do álbum, é composição de Rafael e Rita Alterio. De uma forma repleta de figuras de linguagem, a canção nos traz o anoitecer e amanhecer do interior de uma forma apaixonada.

Repleto de estrelas, os compositores narram o casamento da terra com a noite estrelada, tendo a lua como madrinha e o sereno como vestido. A magia da canção vem quando a terra aproveita todo o tempo possível com sua noite estrelada, antes que chegue o amanhecer. Porém, ela não teme a partida e, sim, anseia pela primeira estrela da noite.

LUA MADRINHA

Primeira estrela de prata chegou no fim da tardinha
Bateu uma revoada pras bandas da ribeirinha
Foi cortejando a florada varrendo erva daninha
Chamando a lua minguada que rodopiava sozinha

De longe se ouviu a toada, cantada feito ladainha
Querendo fazer serenata pra ser o condão da varinha
Que encerra o dia na mata e como quem adivinha
O por do sol arremata o canto da pastorinha

E então a terra bordada de ouro em sua bainha
A beira do rio coroada pensou que fosse rainha
Casou com a noite estrelada, a lua foi sua madrinha
Vestindo véu e grinalda e todo sereno tinha

Nos braços da madrugada, o vento soprou a valsinha
Dançou a noiva encantada enquanto a aurora não vinha
E quando chegou a alvorada a noite se escondeu na linha
Do horizonte que guarda a estrela pro fim da tardinha

Por fim, mas não encerrando a poesia deste trabalho, convido-lhes a apreciarem este trabalho pelas plataformas digitais e sentir toda a sinestesia que ele apresenta.

INFORMAÇÕES GERAIS SOBRE O TRIO E O ÁLBUM.

O Trio formado por Rafael “Garga” Altério – piano e voz , Adriana Sanchez (do grupo Barra da Saia ) – sanfona e voz e Guilherme Rondon – violão e voz , paralelo ao seus trabalhos solos, decidiram reunir-se em um encontro ímpar. Interpretando músicas autorais e misturando suas influências, fazem um CD com muitas toadas, chamamés e baladas , onde a música divide o espaço mostrando suas várias vertentes e influencias .

A alquimia deste trio fica evidente nas vozes, sintonia, olhares e sorrisos. Artistas como Nana Caymmi, Ivan Lins , 5 a Seco, Maria Gadu cantam músicas destes dois grandes compositores – Rafael Alterio e Guilherme Rondon.

A música regional de boa qualidade tem perdido espaço para o sertanejo universitário, entre outras vertentes popularescas, que não trazem a verdadeira essência que tem a canção de raiz apresentada por este trio. Seus integrantes acreditam que só pela difusão de suas músicas poderão levar a população algo que está caindo no esquecimento.

“Todo Interior é Igual”, mais do que mostrar a verdadeira música do campo, vem comprovar que ainda há espaço para a pureza de suas melodias e letras que trazem em seu cerne o singelo sentimento brasileiro para com a vida e a arte.

Esses três artistas, pelos trabalhos solos já realizados, merecem ser reconhecidos, não só pela sua competência artística, já comprovada por grandes nomes da música brasileira que os prestigiam, gravando-os e convidando-os para participações, mas também pela grande mídia que muitas vezes não percebe o quanto a arte brasileira carece disso.

Acompanhados por Bosco Fonseca – contrabaixo, Webster Santos – viola, violão guitarra, Breno Ruiz – piano , Gabriel Alterio – bateria ,Sandro Moreno (bateria), trouxeram dois convidados especiais: o jovem talentoso Pedro Alterio ( do grupo 5 a Seco) e a cantora portuguesa Susana Travassos. Várias  músicas foram compostas especialmente para esse encontro como a linda canção Descendo a Estrada, que inspirou este projeto e algumas releituras de clássicos desses compositores.

O CD foi gravado no famoso estúdio da Gargolandia (SP) e sai pela Radar Records em todas as plataformas digitais no dia  15 de Dezembro e o CD físico no inicio de 2018… (release cedido pela produção do trio)

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