Uma poetisa que muitas pessoas precisam conhecer é a fronteiriça, pantaneira, corumbaense e aventureira Mari Antunes. Seus poemas transmitem uma gama imensa de sentimentos, os quais carregam suas raízes, seu jeito mochileiro e curioso de ser, amores a flor da pele.

FRONTEIRA

 
Viver aqui e agora
é bom e cheio de calor,
quando a noite ao dia devora
o som e o perfume têm certa cor.As tardes são silenciosas,
cheias de preguiça,
cheiram a perfume de rosas,
ao meu instinto enfeitiça.A algazarra de cantos tardios
ecoam por entre a mata
fazendo que cães vadios
demonstrem muita bravata.Há o reclame da criança:
“Ainda há tempo de brincar!”
Da mãe que tem esperança,
ao filho uma educação dar.Mas…tudo acontece devagar
em meio à comida e dormida,
e tudo fica sem par
perdidos em meio à lida.Com um olhar mais atento
roupa suja vira bandeira
desfraldada pelo lamento,de quem já está na fronteira.

Onde começa a pobreza ?
Onde termina a sujeira?
Na caixa que vira mesa
ou na diária canseira?

Nesse ambiente abafado
há duas redes surradas
que já roubaram o feitio
dos corpos de formas mirradas.

A fé está sempre atrasada,
na parede presa a um prego,
contando em rezas marcadas,
pedidos de quem está cego.

Mas é por aquele buraco
que tem nome de janela,
que o sonho é um marco,
da vida depois da cancela.

Do lado de lá há promessa
de um mundo verde e fartura,
cá dentro o desalento confessa,
é mundo que não se atura.

O sonho às vezes engana
com brilho, no caminho de asfalto,
escolhe de forma insana,
deixa tudo num salto.

Apaixonada pelas palavras, sua infância foi repleta de livros. A poeta gostava de ocupar o horário do intervalo escolar para adentrar no mundo das letras, indo direto à biblioteca para ler contos infantis. E, foi assim, mergulhada no mundo das histórias, que a vontade de escrever apareceu. A criação de contos e poemas surgiu naturalmente e passou a ser parte de sua vida, porém, todos mantidos em cadernos, gavetas e somente aos seus olhos e de amigos.

Filha de um paulista e uma pantaneira, Antunes passou sua infância em Corumbá e adolescência em Pirajui, São Paulo. Aos 23 anos voltou para cidade branca e ali se formou em História e Geografia, teve seus filhos e lecionou por aproximadamente 25 anos.

Em todo este tempo seus poemas permaneceram guardados, porém os cadernos continuaram sendo alimentados com poemas e contos novos. Como nunca houve intenção de publicá-los, foi uma surpresa quando descobriu que uma amiga, certa vez, pegou um de seus poemas e enviou para a Revista Máxima. Um tempo depois, o poema foi publicado na contracapa da revista, causando-lhe imensa surpresa. Após esse feito, seus poemas tomaram lugar em mais duas publicações impressas, duas coletânea de poemas, uma somente de poetisas e outra, nominada “Sinfonia de Letras”, organizadas pelo grupo ALEC (Academia de Literatura e Estudos de Corumbá), e em 2017 participou de outra coletânea chamada “101 Reinvenções”, realizada em comemoração ao aniversário de Manuel de Barros.

Então, se há poucas publicações, como conhecer os versos dessa poetisa tão intensa nas palavras?

Bem, em março de 2010, Mari Antunes abriu um blog com o nome de “Eu queria lhe falar de coisas”. Com isso, a escritora passou a publicar os versos enclausurados em seu diário virtual, dando-nos a oportunidade de apreciar suas estrofes.

Seus poemas, repletos de emoções a flor da pele, representam os sentimentos de uma alma repleta de lembranças e desejos. Desejos de se entregar, desejos de se aventurar por aí, vontades de jogar pra fora as dores, lembranças, como ela descreve em seu blog.

“Os poemas e contos, aqui postados, foram escritos aos catorze, quinze anos. Muitos em cadernos de brochura; alguns perdidos, outros separados em folhas de cadernos diferentes; papel de pão; guardanapos. Enfim, obedeceram a um impulso que não escolhia hora nem local para se manifestarem. Impulso que era despertado por uma palavra que alguém dizia, por uma canção ouvida no rádio, por uma história de amor que ficava sabendo, por uma perda de alguém. Tudo era combustível para eu escrever.
Hoje, encontro inspiração, ou seria desabafo, em minha própria história de vida, Não invento sofrimento, ele simplesmente está lá, esperando para ser espalhado entre os meus escritos. Só dessa forma não fica tão pesado para eu carregá-lo.
Nos meus escritos falo também do lugar onde vivo, das pessoas que me são caras, das que passam pela minha vida e deixam sua marca e até dos meus bichos que me fazem companhia nos momentos solitários.
O ambiente que me deixa em estado de graça para escrever: tempo nublado,cinzento, com prenúncio de tempestade, anunciada por um ventinho gelado que tira meus cabelos da testa. Procuro meu quarto, acendo a luz, tranco a porta.

Pronto! Perfeito.
Nunca mudou, sempre foi assim.

Escrever é minha terapia. É a faxina necessária pra ter de volta o coração leve por um tempo. É o alimento que me dá energia pra enfrentar cada dia e tudo que ele traz,as coisas boas e as más.”
Mari Antinues (Eu queria lhe falar de coisasl)

MOMENTOS

 
Foi naquele momento
no quarto tão cru
sem adorno,sem perfume,
naquele quarto tão nu
que eu te amei.

Foi naquele momento
em seu leito branco
aconchego de seu corpo
que eu te amei.

Foi naquele momento
debaixo daquela
difusa claridade
que discreta me mostrou
que eu te amei.

Foi naquele momento
em que a fumaça
de seu cigarro
em cortinas passageiras
se formou
que eu te amei.

Foi naquele momento,
naquele tapete solitário
estendido ao chão,
simples,rústico,
com uma figura de leão
que eu te amei.

Foi naquele momento
em que a porta
brusca se abriu
trazendo o eco grave
de sua voz
que eu te amei.

Foi naquele momento
em que o som forte,
terno,
sensual,
de um velho violão
se fez ouvir
que eu te amei

Foi naquele momento,
no descanso distraído
de seu braço em meu dorso
que eu te amei.

Foto de Rafael Arruda

FLOR DA PELE

 
À flor da pele
deixei plantar
uma semente de carícia
de tão profunda raiz.Teve a brisa do seu beijo
Teve o cuidado do seu abraço
Teve o sol do seu olhar
Teve a gota do seu suorÀ flor da pele
deixei crescer
uma semente de malícia
de tão daninha raiz.Teve a brisa da minha dúvida
Teve o vento do meu tormento
Teve o sol da minha verdade
Teve a gota do meu prantoÀ flor da pele
seca-sedenta-árida
nasceu
cresceu
forte e isolado
um majestoso cactos de solidão
Com postagens até 2015, o blog contém 260 textos, variando-os em poemas e contos. Não há uma periodicidade nas postagens, ou um cronograma o qual foi seguido a risca. Ao ler os escritos, percebe-se que há, muitas vezes, mais de um poema postado no mesmo dia. Muito mais do que atualizar a página, os textos parecem ter a função de limpar a alma, deixa-la mais leve. O ato de compartilhar seus poemas, dá a entender que, é uma atitude de desapego, para que os outros, leitores possam se apropriar, se reconhecer e tomá-los como algo íntimo, como algo próprio.

NÃO PASSA, TEMPO

Não passa tempo,
não passa
assim ligeiro.
Deixa o dia, primeiro.
Deixa a noite
descansar no travesseiro.
Não passa, tempo,
não passa.
engorda as horas
e decora por fora,
com minutos e segundos,
empacados.
pra que os ponteiros
não mostrem,
o velho tempo passar.
Não passa tempo,
não passa.
Fique na primeira estação,
em setembro do coração,
com as bagagens nas mãos.
Não siga sua vigem,
estou dezembro,
em completa solidão,
como aqui cheguei,
não lembro.

Foto de Fernando Antunes (Casaco Verde)

Em 2012, em conjunto com o blog, Mari começou a migrar o seus poemas para o facebook, montando uma página com o mesmo nome”Eu queria lhe falar de coisas “.
Agora, os poemas são acompanhado de imagens, fazendo um diálogo semiótico das palavras com as texturas visuais. Algumas das imagens são retratos da própria escritora, porém, captados pela sensibilidade e talento de seus dois filhos fotógrafos, Rafael Arruda (Homemmverde) e Fernando Antunes (Casaco Verde). A poesia dos filhos não vem em forma de palavras, mas em forma de imagens e, junto com os léxicos de Mari Antunes, fazem uma sinfonia perfeita.
Além disso, por essa página, temos acesso aos poemas mais aventureiros. Antunes, que é apaixonada pela vida mochileira, traz nas fotos e em seus textos os caminhos da América do Sul.

Foto – Rafael Arruda

DE TREM
(para Sta Cruz de La Sierra )

Vacas magras, plantação!
Campo seco, verão! 
Céu morrendo, escuridão!
Riacho turvo, pontilhão!
Cercadinho, habitação!
Homem franzino, guardião!
Mulher só, desesperação. ..
Passa rápido, entre janelas,
distâncias lambidas pelo vento.
Foge o olhar da ruína,
cerrando a negra cortina!
Meu olhar vaga pelo meio,
distraido, interesseiro,
vira prisioneiro…
O que queres me contar
com tamanha intensidade ?
Meu pensamento faz linhas
nos cantos da boca e da testa…
Escritas com imaginação,
mapas de curiosa tensão!
O apito choroso do trem,
rompe o elo, a ligação.
Fecho os olhos, libertos,
dou – lhes medo, proteção,
meu destino está certo.
Meu destino foi marcado.
Meu destino está traçado;
na passagem está escrito :
Vai para a cidade do sal !
Será que rasgo a passagem,
mudo o destino final ?
Sigo para a sua estação?
Será que mudo minha imagem,
visto um novo personagem
e de mãos dadas com a emoção,
vou para sua cidade, perdição ?

Foto – Rafael Arruda

E assim, essa poeta “virtual” segue. Não dá pra guardar seus livros na estante e folheá-los quando dá vontade, entretanto, podemos adentrar ao mundo cibernético e nos alimentar de seus poemas em seus cadernos digitais. Vale a pena, eu sempre o faço.

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