Em 7 de janeiro de 1977, Roland Barthes adentrou o espaço sagrado do College de France e ministrou a aula inaugural da cadeira de Semiologia Literária. Neste texto Barthes revela o que, para mim, constitui em essência o sentido da literatura. Ele aponta o fato de a literatura ser possuidora de 3 grandes forças, a saber: mathesis, mimesis e semiosis. Penso que essas 3 categorias revelam o sentido do texto literário e a importância da literatura na vida das pessoas.

A começar pelo fato de que a literatura agrega em si outros saberes e enquanto tal, pode se revelar um monumento que junta em seu corpo todas as outras ciências, designando a partir daí uma série de possibilidades em termos de conhecimento e costurando a sutileza representada pela vida e o universo mais grosseiro instrumentalizado pela técnica. Assim, ela promove momentos de reflexão.

Neste sentido, a literatura se apresenta enquanto um espaço de libertação, enquanto um espaço de prazer onde a palavra assume o tom de uma explosão. Em essência, este universo traz em si o sentido etimológico da palavra saber, a qual está relacionada a sapere, ou seja, algo que tem gosto, que exala um cheiro ou um odor, que permite perceber o sentido das coisas pelo paladar. E não necessariamente estamos falando em comida aqui!

Tomemos como exemplo o texto “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust. Vamos pensar no momento em que as migalhas de um biscoito fizeram com que um escritor frustrado rememorasse o seu passado. O “sabor” que a literatura tem, está relacionado a este sentido, a esta força de representação que consegue criar uma verdade a partir do inverossímil; que articula uma imagem a partir do inimaginável; que torna possível o impossível; que revela o inconformismo com a realidade “nua e crua”; que deseja a utopia; que me permite sonhar…

Literatura é teimosia. É “caçar jeito”, quando se costura o tecido dos significantes para se alcançar a liberdade desejada pelo poeta que se tornou passarinho.

Literatura envolve a capacidade de nos transportarmos para outros lugares utilizando a nossa imaginação, elemento que (aparentemente) a sociedade tecnológica e high tech perdeu. Talvez, questionando esse processo, possamos questionar a existência da literatura para além da realidade objetiva dos movimentos literários e das regras estéticas que definem se um texto é ou não é literatura. O próprio Barthes confirma isso quando diz que: “Entendo por literatura não um corpo ou uma sequência de obras, nem mesmo um setor de comércio ou de ensino, mas o grafo complexo de pegadas de uma prática: a prática de escrever”.

Literatura exige jogar com os signos sedutores da língua e da linguagem, assumindo e celebrando toda a indecisão que, per se, a palavra alimenta em si, construindo miragens através das quais a incerteza do real se ampara na sombra da realidade, promovendo a (re) ligação entre o mundo dos símbolos e o mundo dos seres humanos. É por isso que a literatura nunca diz saber de algo. Em geral ela afirma que sabe de algo sobre as coisas.

Mas ao final, sabe muito sobre o ser humano.

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