No mundo machista em que vivemos, não se surpreende com a necessidade de um filme que retrate o sexismo que, contrariando os passos da evolução humana, ainda existe. O filme “Eu não sou um homem fácil” (“Je ne suis pas un homme facile”) de Éléonore Pourriat, lançado nesse ano, explica o machismo escancarado de maneira bem didática para que até o mais misógino dos homens possa entender o que as mulheres sofrem diariamente simplesmente por causa de seu gênero. Talvez a intenção do filme tenha sido atingir os menos informados sobre equidade de gênero. Se sim, acredito que ele tenha cumprido sua função. Em caso negativo, não obteve tanto sucesso, já que não faz nenhum recorte de classe ou raça e inverte os papéis de gênero sem uma consideração mais cautelosa de suas implicações. (Cuidado, essa crítica pode conter spoilers).

“Eu não sou um homem fácil” se propõe a contar a história de uma sociedade diferente da que conhecemos: uma sociedade matriarcal. Contudo, Damien, o protagonista, não nasceu nessa sociedade, mas na que conhecemos. Ele é o estereótipo de homem machista galanteador e, após sofrer um acidente, encontra-se perdido ao acordar em uma sociedade desconhecida na qual ele passa a ser o oprimido. Pourriat acerta em cheio ao tocar em um assunto polêmico e consegue dirigir um filme fácil e até divertido de se assistir. Infelizmente, os pontos negativos acabaram se destacando para mim, e não fiquei tão contente quanto gostaria com o resultado final da proposta.

A primeira cena do longa-metragem é um flashback da infância do protagonista e mostra um trauma sofrido por ele por causa dos papéis de gênero que a sociedade francesa — o filme se passa na França, mas, nessa questão, a sociedade não é muito diferente da brasileira — estabelece. Em seguida, vemos que o protagonista está contando essa cena para sua terapeuta, e é aqui que meus incômodos começam: primeiramente, o flashback não é retomado em nenhum ponto do filme. Apesar de o machismo enraizado afetar, sim, os meninos e influenciá-los a agirem da maneira que a sociedade espera, senti que essa cena tentou justificar as ações do personagem (um babaca, diga-se de passagem), tirando uma culpa que, como indivíduo, ele também deveria carregar. Ele relata o acontecimento para a terapeuta aparentemente sem motivo, pois em seguida comenta que está ali por um problema que não tem nada a ver com questões de gênero. Chegamos ao próximo ponto que me incomodou: Damien vai à terapeuta para resolver sua escovação compulsiva de dentes, o que, aparentemente, é uma metáfora para alguma coisa, mas achei isso tão mal trabalhado que até agora não consegui entendê-la.

Como “Eu não sou um homem fácil” é um filme que faz uma crítica à desigualdade de gêneros, senti falta, no início, de personagens femininas que tivessem mais importância à trama, porque os protagonistas, durante vários minutos, eram homens. Isso muda um pouco quando Damien chega ao que eu carinhosamente nomeei de mundo invertido, pois a personagem Alexandra ganha mais destaque e temos uma visão dos eventos também sob a perspectiva dela. No mundo invertido, Alexandra é escritora (ao invés de apenas uma assistente como no mundo de Damien). Ao conhecer Damien, um homem que é um masculista, ou seja, defende os direitos dos homens naquela sociedade matriarcal, decide usá-lo como molde para escrever seu novo livro com intenção de provar que, na verdade, todos os homens são iguais, mesmo que alguns não se achem “fáceis”. Achou a história familiar? Para mim, pareceu um enredo clichê de comédia romântica heterossexual em que o homem quer iludir a moça, mas acaba se apaixonando por ela. Só que, obviamente, ele a magoa antes e deve fazer o possível para reconquistá-la. Bem, é exatamente o que acontece aqui, mas com os papéis invertidos, e é difícil sentir alguma empatia por Damien, pois, além de ele ser completamente machista no mundo dele, ele não se redime em nenhum momento nem mostra estar um pouco arrependido de tudo que já fez de ruim para mulheres. Levar o filme para o caminho de uma comédia romântica foi um desperdício, pois usou tempo que seria mais bem aproveitado pensando em uma sociedade matriarcal que não fosse simplesmente a sociedade patriarcal com os gêneros trocados. Explico a seguir.

A sociedade matriarcal do mundo invertido é apenas uma cópia da sociedade patriarcal que conhecemos. As características consideradas respeitáveis ainda são as características masculinas do nosso mundo. As mulheres, por exemplo, usam as roupas masculinas do nosso mundo enquanto os homens usam roupas mais provocativas. As mulheres não usam saia ou vestido porque, aparentemente, essas vestimentas seriam um símbolo de fragilidade. As mulheres nessa sociedade também não podem ser sentimentais, pois esse é um papel designado aos homens, ou seja, o sentimentalismo ainda é visto como algo ruim. São os homens que se veem pressionados a casar e constituir uma família, porque as mulheres querem se relacionar com o máximo de homens possível. Em resumo: a socialização de homens e mulheres no mundo invertido se deu da mesma maneira que no nosso mundo real, apenas trocando os sexos. Honestamente, eu acredito que uma sociedade matriarcal teria sido criada de maneira muito diferente e os costumes não seriam os mesmos da nossa sociedade patriarcal.

No “mundo invertido”, profissões que geralmente são dominadas por homens são dominadas por mulheres, incluindo as de menor status social.

Por fim, gostaria de destacar o ponto alto do filme: o final, que foge do previsível. Ao contrário do desenvolvimento do enredo, o fechamento inova ao não mandar Damien de volta para o mundo dele como um homem mudado e consciente, mas ao levar Alexandra para a sociedade de Damien. Lá, ela se sente atordoada ao notar que o lugar que o amado descrevia para ela é, de fato, real. Pessoalmente, eu gostaria de ver o desenrolar da história de Alexandra no nosso mundo.

Apesar dos aspectos negativos, o tempo que passei assistindo a “Eu não sou um homem fácil” foi proveitoso. O filme é gostoso de se assistir e, por tratar um assunto de maneira muito superficial, faz com que o espectador reflita sem exigir muita concentração dele. Acredito que é um filme importante para quem é leigo ou iniciante nos estudos de gênero, mas não a obra-prima feminista da década.

Curiosidade: para quem se interessou pela premissa, existe um curta de 2012 disponível no YouTube chamado “Love Is All You Need” que retrata uma sociedade em que o padrão é ser homossexual. É uma premissa parecida com a desse filme e você pode assistir o curta aqui.

P.S.: lembra-se da mania de escovação de dentes do Damien? Nem eu, ele superou sem explicação no meio do filme.

A INVERSÃO DOS PAPEIS DE GÊNERO EM "EU NÃO SOU UM HOMEM FÁCIL"
3.9Pontuação geral
ORIGINALIDADE
FOTOGRAFIA
TRILHA SONORA
ATUAÇÕES
DESENVOLVIMENTO

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